Críticas

Published on fevereiro 27th, 2015 | by Marcelo Leme

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Crítica: Sniper Americano

modeloAltereaSniperAmericanoSniper Americano é um drama biográfico de guerra que traz a história do franco atirador Chris Kyle, considerado responsável por mais de 200 mortes. Baseado na biografia escrita pelo próprio Chris, a obra foi dirigida por Clint Eastwood e exaltou um suposto herói. Há quem questione o apelo do filme, julgando-o nacionalista ou odiavelmente patriótico, percepção que considero equivocada frente a progressão dada na narrativa. É bem mais um estudo de personagem do que uma simples concepção de herói. Sobreviventes são heróis? Tal consideração não é uma consolação moral? A verdade é que o filme é imoral, cruel, irônico e delicado. Nesse sentido, baseia-se na vida de alguém real para se tecer uma crítica a condição daqueles que estiveram na guerra e jamais deixaram aquele lugar.

 Bradley Cooper personifica Chris Kyle numa atuação bastante segura. Acompanhamos alguns dilemas morais e disfunções desse personagem, algo que já havia sido trabalhado de uma maneira ligeiramente mais elegante por Kathryn Bigelow em seu Guerra ao Terror (Hurt Locker, The, 2008).  A violência retratada é um embate intrincado, naturalizado na condição de seu protagonista, desde os tempos em que esteve longe da carreira militar até seu alistamento. Isso estaria enraizado no ser humano? A violência é uma resposta? Essas questões aparecerão para o espectador ao longo do filme. A cena inicial nos leva para dentro dessa discussão e abre um arco visando a expectativa diante um ato absolutamente crucial. É um convite ao pensar a partir da guerra e suas circunstâncias, jamais elevando projetivamente seu protagonista a qualquer status célebre.

 Eastwood segue em forma e não perdeu sua habilidade em contar histórias. O diretor provém do ótimo Jersey Boys: Em Busca da Música (Jersey Boys, 2014) e concilia com esse drama de guerra relevante uma narrativa consistente sobre pessoas reais com suas personalidades conceituadas sem pudores. Aí adentramos na história, os tempos que em que Chris, menino, ouvia o pai bradar machismo e ignorância, fundamentando o homem enquanto um sujeito predisposto a violência. A cena da caça é particularmente simbólica. Há outros preceitos vigentes no diálogo presente naquele pequeno e conservador núcleo familiar. Ao que parece e se aponta, a violência é aprendida. A motivação que leva Chris a se alistar é a queda das torres gêmeas. Ele vai para a Guerra defender a honra de seu país contra um país – Iraque – que nada teve a ver com o ataque ao World Trade Center. Ops, há um senso crítico questionável aí, nesse sujeito que julga o Estados Unidos a melhor nação do mundo. O roteiro não cai na armadilha de delinear a história puramente num sentido maniqueísta. E tal jornada do herói, proposta tão recorrente em produções medíocres, já saiu de cena há anos.

 A guerra perde espaço para um drama particular. Ela é um pretexto para a monstruosidade de seu protagonista que empunha armas como empunha flores. E pior, ele conta com orgulho a quantidade de mortos o qual se responsabilizou. A técnica é satisfatória, com tudo funcionando adequadamente a ponto de trazer o espectador para perto da guerra, seja a partir dos cortes ou em alguns pontos cruciais de movimentos de câmera, efeitos e soluções narrativas cujo papel é humanizar ou desumanizar os personagens. Aí o ponderamento crítico de boa parte dos espectadores: estaria Eastwood promovendo um personagem hediondo como um herói? Creio que não. Entendo que esteja muito mais explanando esse personagem dissecando-o para salientar um ideal patriótico tolo, com pessoas que perderam familiares ou ficaram comprometidas de diferentes maneiras. São milhares de sobreviventes ou familiares que convivem com as consequências das guerras. Pode até rolar alguma identificação do público com o sujeito retratado, mas dificilmente alguém irá encará-lo como um homem honradamente admirável. Se sim, então é provável que o admirador seja tão repugnante quanto Chris Kyle.

 Na parábola do lobo, da ovelha e do cão pastor contada em um momento do longa reside a identidade de Sniper Americano: a violência como cultura. Aí trago um breve questionamento de Hannah Arendt em seu livro Sobre a Violência: “Ninguém que se tenha dedicado a pensar a história e a política pode permanecer alheio ao enorme papel que a violência sempre desempenhou nos negócios humanos, e, à primeira vista, é surpreendente que a violência tenha sido raramente escolhida como objeto de consideração especial”. Estamos vendo-a em todo lugar, até mesmo promovida pelos ditos heróis, o que é particularmente nocivo.

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



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