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Published on dezembro 22nd, 2014 | by Marcelo Leme

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Alguns dos Melhores Filmes de 2014

Após escrever sobre alguns dos piores filmes de 2014, trago agora alguns dos melhores. Ainda não viu a lista dos piores? Acesse http://cineemprosa.alterea.com.br/alguns-dos-piores-filmes-de-2014/

Pois bem, segue alguns breves comentários de notáveis obras que se destacaram entre as lançadas comercialmente em 2014 que tive oportunidade de assistir.

Vidas ao Vento

Vidas ao Vento

Esta é uma romântica cinebiografia de Jiro Horikoshi, um engenheiro aeronáutico e designer que serviu o Japão durante a Segunda Guerra Mundial. Sua vida é contada com a tradicional minúcia característica das animações do Studio Ghibli. Os desenhos, o romance, as guerras, tudo é retratado de maneira incrivelmente sólida comparada às animações anteriores do estúdio e sucedem num tom imaculado, restringindo a performance da fantasia aos delírios de concepção de um jovem sonhador – um desenhista assim o é. As elaborações narrativas da obra seguem linearmente comprometidas com uma história pessoal, funcionando como intersecção a de seu próprio realizador. É o último filme de Hayao Miyazaki, e, conforme o vento do título, voa alto e longe, ainda que seja seu trabalho mais firme e menos fantástico. Vidas ao Vento é uma corrente valorosa de emoção e melancolia.

Pais e Filhos

Pais e Filhos

É possível que muitos encarem o filme como um dramalhão qualquer envolvendo crianças, precisamente a troca delas enquanto bebês. A expectativa rui nos primeiros minutos de Pais e Filhos, quando Koreeda exalta suas intenções ao apresentar um filme cujas soluções não são simples e tampouco sucintas, mas discutíveis, problematizadas ao longo de 120 minutos. Sua câmera propõe experimentos, o espectador absorve e critica. Estamos diante um belíssimo drama envolvendo duas distintas famílias. Longe de elucidações simples ou prováveis, o roteiro se encarrega de criar um arco centrado em sensatez.

Amantes Eternos

Amantes Eternos

Os vampiros são apenas um detalhe nessa produção do icônico Jim Jarmusch. As relações é o que interessa. Somos alçados a um núcleo e não saímos mais dele, contemplando um romance temporal que atravessou séculos, banhado pela cultura dos tempos e de diferentes locais. A sonoridade latente que molda a narrativa contribui ativamente para uma sensação projetada de nostalgia, aquelas típicas lembranças de coisas não vividas. Diálogos suntuosos e ácidos em meio ao turbilhão de abstrações existenciais contribuem com a experiência visual, além de ser deliciosamente melancólico. Ah, e tem as ótimas canções.

Boyhood

Boyhood

Poucas vezes o tempo foi tão bem trabalhado dentro do cinema. Richard Linklater nos presenteou com uma pérola, um filme significativo que se modela em pequenas histórias, em ciclos, através de transições temporais que contemplam breves retratações humanas. É um filme cuidadosamente gestado. Dentro da arte do cinema, esse é um dos trabalhos mais corajosos e impactantes. Ao final, remanesce uma estranha sensação de melancolia por nos despedirmos dos personagens após tantas significativas histórias. Depois de Jesse e Celine, Mason também dignificou-se como um personagem icônico dentro de uma valorosa filmografia.

Garota Exemplar

Garota Exemplar

Alguns andam dizendo que David Fincher é incapaz de fazer filmes ruins. Olhando sua filmografia, esse parece ser um fato inquestionável. Garota Exemplar tem um dos melhores roteiros do ano. Construído cuidadosamente, o filme trabalha diretamente com o espectador através de suposições, o que nos mantém capturados pela atmosfera de tensão e investigação. Pouco a pouco o filme se revela e outras questões emergem. Julgamentos morais ascendem! A trama se modela em outros formatos e um thriller preciso explode em cena. A montagem oferta bom ritmo e Fincher garante um dos mais admiráveis trabalhos do ano.

12 Years A Slave

12 Anos de Escravidão

Grandes cenas e grandes atores se envolvem num filme de circunstâncias brutais e de fundamental valor histórico. Grandes interpretações e nuances cênicas o favorecem. É estonteante e incômodo sem ser gratuito. Não são poucas as cenas em que o público vira o rosto, incapaz de contemplá-las. Essas possuem toda uma dimensão sensorial, favorecida pelos longos planos sequência. É obra do cara que fez Shame e Hunger, dois belíssimos trabalhos. Tem identidade própria, o reconhecemos de uma maneira que poucos cineastas conseguem fazer. O filme é austero, é profundo! Uma grande história contada por um negro – o que dá ainda mais ímpeto ao tema. Steve McQueen é um cineasta duro e lúcido.

O Lobo atrás da Porta

O Lobo atrás da Porta

A estreia do curta-metragista Fernando Coimbra em longas é marcada pela sutileza na condução da trama e na habilidade em sair do drama policial para o suspense de ocasião, ascendendo à medida que fatos são revelados. É notório seu comprometimento em extirpar o romantismo capenga e converter o rumo delgado de produções semelhantes, assumindo uma direção contrária às pretensões brandas. Aqui o desenrolar é outro, choca pela pureza e crueza. A partir do trabalho cênico, temos a real impressão do quão lúgubre são as relações dispostas em cena, isso é condizente a fotografia escurecida deixando a noção de omissões, e aos vários momentos em que grades sobrepõem os personagens, mantendo-os simbolicamente presos, quase que intimamente inacessíveis. Sonhos se fundamentam na expectativa, a do outro nos é incerta. E nem todas as verdades são fáceis de encarar. E nem todas as atitudes são simples de compreender. Ainda tem a cena do roda roda, uma realização esplêndida. E Leandra Leal? Divina e brutal.

O Abutre

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A forma como a mídia abraça a tragédia em nome da audiência é o tema central dessa obra do diretor estreante Dan Gilroy. O que assistimos é uma enodoa moral, coisas sujas que ganham atenção em programas sensacionalistas e exprimem a miséria alheia em busca de audiência. Trata do que estrategicamente vivemos cercados a partir da ótica de uma cidade como Los Angeles, mostrada de uma forma que nos é desconhecida, anti-mainstream, com becos escuros e solidões. Somos alimentados de podridão e nos encantamos pelo espetáculo criado, tal como na música, na literatura, no cinema e em todo lugar. Ágil, eficiente e adornado por um tom lúgubre que metaforiza seu obscurantismo, O Abutre com seu sensacionalismo é sensacional, uma turbinada injeção de moral suja e crítica sobre o quanto o ser humano pode ser desprezível. Jake Gyllenhaal insano vive um de seus melhores personagens.

Bem vindo a Nova York

Bem vindo a Nova York

Strauss-Khan é apenas uma inspiração para Abel Ferrara criar uma espécie de Deus. Contendo cenas devastadoras – o diálogo entre o casal é uma ebulição de sentidos – e momentos cuja vaidade do protagonista enoja e delira através da ebriedade lasciva de seu furor libidinal, constatamos em cena um ideal egoísta representado pela vitalidade pertinentemente monstruosa de Gérard Depardieu. Beira o grotesco, mas é magnânimo. As reações bem contornadas e a câmera livre que encontra um homem destrutivo em Nova York aspira o que mais é visado na filmografia do cineasta: o poder, o poder além de qualquer coisa. Um esplêndido filme cujo protagonista e antagonista divide a mesma pessoa.

Era uma vez em Nova York

Era uma vez em Nova York

Joaquin Phoenix e James Gray definitivamente formam uma bela dupla. Soma-se  a eles o talento vertiginoso de Marion Cotillard. Pequenas cenas crescem de uma maneira tocante. Não se trata nem da retratação condizente e caprichosa, mas da forma com a qual a miséria é ambientada numa expectativa roubada de um porvir idealizado. O que assistimos são vidas à deriva, elas apontam o cruel sentimento de desencanto, e este é lindamente traduzido pela câmera de Gray. O sonho americano torna-se em desesperança numa terra obscura, e a amargura coletiva apenas insinua penitência, ainda que o ideal de prosperidade reluza. Vou levar um bom tempo para esquecer o plano final, e isso é uma satisfação absoluta.

O Passado

O Passado

Associado a tramas engenhosas e flexíveis, desprendendo da característica habitual do cinema iraniano com narrativas mais densas, Farhadi inova e impõe um novo estilo. Os aspectos simbólicos todavia são conservados. Há cenas chave e espertas, como aquela em que os personagens Ahmad e Samir ficam opostos na cozinha, um plano se delonga mostrando a dupla retraída, constrangida. Tal sensação atinge o público. Experimentamos a empatia do comportamento em planos longos e tortuosos, desenvolvidos com atributos que dimensionam o talento do diretor em filmar intensos conflitos familiares. As cores esverdeadas favorecem a misantropia nos cenários pouco iluminados. A obra leva à reflexão não somente pelos valores impostos, mas pelos significados de todas as ações e quase que inevitáveis reações. A culpa perdura. O passado atormenta. E Asghar Farhadi deslumbra!

Menções Honrosas:

Alabama Monroe, de Felix Van Groeningen

Jersey Boys: Em Busca da Música, de Clint Eastwood

O menino e o mundo, de Alê Abreu

O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese

Ela, de Spike Jonze

Inside Llewin Davis: Balada de um homem comum, dos irmãos Cohen

Instinto Materno, de Calin Peter Netzer

O Grande Hotel Budapeste, de Wes Anderson

The Rover – A caçada, de David Michôd

Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1, de Francis Lawrence

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



One Response to Alguns dos Melhores Filmes de 2014

  1. Rafael W. says:

    Boyhood e Garota Exemplar são meus preferidões disparados dessa tua lista, Marcelo.
    Ainda preciso assistir O Abutre e Amantes Eternos.

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