Críticas

Published on fevereiro 14th, 2015 | by Marcelo Leme

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Crítica: 50 Tons de Cinza

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Muitos aguardaram ansiosos. Eis um comportamento natural quando livros queridos de um determinado público ganha alguma adaptação. E como a maioria ainda insiste em comparar livros com filmes, é provável que tenham saído do cinema decepcionados. Não li o livro, mas percebi o roteiro buscando formas de abrigar atos arbitrários, momentos que provavelmente estavam no livro e que muitos questionariam se faltasse na adaptação. Assim a roteirista Kelly Marcel precisou encontrar um jeito de por lá, deixando a obra desarmônica. O ato final rui tentando dar conta de tudo. E é aí que, no meu ponto de vista, reside o grande problema do filme: não dar conta em ser cinema em benefício da imagem idealizada de seus fãs. Termina sendo um produto de imagens que os leitores de E.L. James idealizaram quando leram 50 Tons de Cinza. Mas vejam, a sessão não é dispensável e oferece coisas verdadeiramente interessantes. A diretora Sam Taylor-Johnson não o negligenciou.

No caráter de narrativa, há uma insossa e esquemática relação. Ainda que Jamie Dornan e Dakota Johnson formem uma dupla cênica interessante, seus personagens não sustentam o mito criado, especialmente com relação a gama do sexo, algo que seguramente dividirá opiniões a respeito de abuso sexual ou consentimento mútuo. São vários os momentos em que isso é evidente, especificamente nos diálogos tolos, deslocados numa lógica de relações e intenções. Christian Grey, o protagonista que arrancou suspiros no meio da sessão, é um sujeito hediondo que numa abordagem diferenciada do roteiro tornaria-se vilão. As desculpas por seu comportamento são triviais e imprecisas. É claro que o arco está aberto, a conclusão – e sua dignidade – deverá vir nos próximos filmes. Espero.

Os efeitos cênicos contribuem com a imagética. É um bom filme de se ver. A cena inicial com Anastasia no elevador já nos lança para dentro da ótica projetada. A fotografia juntamente a iluminação competente é sublime e trabalha muito bem paletas de cores, sendo o cinza muito característico contrapondo a vivacidade do mundo exterior de seu protagonista. Um recurso metafórico de introspecção. A direção de arte favorece a imagem imponente dada a Grey House – signo do próprio personagem – com o figurino das belas mulheres que trabalham em sua firma empregando uma curiosa impressão de meticulosidade, apontamento a psicologia do líder firmado de terno e gravata. Visualmente é competente.

Na fundamentação da história e alvo de toda a polêmica, está a relação sexual entre a dupla. O tal quarto vermelho é bem esmiuçado, a cor vermelha, aliás, parece representar o âmago de seu personagem, seus íntimos e ínfimos segredos. Não à toa, há sempre um plano detalhe quando ele saca a chave para abrir a porta de onde esconde seus prazeres, particularidade aberta somente a quem ele escolhe ter acesso. Há até um contrato para ser assinado. Parece sério, mas de perto é bizarro. E quanto a esperada hora do sexo, algo que defendo completamente no cinema enquanto condição natural humana, a coisa simplesmente flui sem tanto ímpeto. Admito ter ido assistir ao filme temendo ver alguma banalização hollywoodiana sobre. Boa surpresa. Há boas cenas de sexo feitas em moldes e sem necessidade de ir mais longe, ainda que eu, admito, gostaria de ver. Acredite, não seria pornografia soft. E você que julga cenas assim certamente se incomodará e o problema é absolutamente seu! Resolva-se.

Tal crítica a você leitor pudico é relevante para a análise do filme. Anastasia Steele é a representação de uma jovem moça virginal. Ela escolheu a hora e libertou-se, ainda que questionavelmente dentro do que o filme propõe. Percebam que nas cenas de sexo o gozo é manifesto por ela sempre quando está relacionado ao toque, ao contato corporal e nunca nas propostas sados de seu companheiro. Ele, por outro lado, faz tudo de maneira mecânica – lembram-se das cenas de Shame (Shame, 2011) com partes do corpo movimentando semelhante a engrenagens? – de modo sistemático, tal como todas as suas realizações pessoais. Há um consentimento oriundo da paixão, não do prazer. Dito isso, estou realmente interessado em saber no que essa relação se transformará nos próximos filmes. Se seguir unicamente a linha imposta nesse 50 Tons de Cinza, então será horrendo! Ah, ainda sobre o espectador, ainda que questionável diante a projeção, é bom ver mulheres decidirem o que ver e, quem sabe, buscar coisas diferentes que lhe dão prazer, ainda que despertadas pelo estímulo de um filme/livro como esse. Mulheres não tem que ficar subjugadas a vontade dos homens como Anastasia fez nessa primeira parte, mas buscar investir em seus prazeres como bem quiser.

É uma pena que seja em 50 Tons de Cinza que algo pode ser encontrado, é compreensível, mas há produtos análogos infinitamente melhores. 9 1/2 Semanas de Amor (Nine 1/2 Weeks, 1986), Secretária (Secretary, 2002) e Anatomia do Inferno (Anatomie de l’enfer, 2004). Vou ainda mais longe lembrando dos belíssimos clássicos japoneses Cega Obsessão (Môjû, 1969) e Império dos Sentidos (Ai no corrida, 1976). Confiram! Há mais. Mas frente ao apelo mainstream, ao público certo, então o cinema ganhou uma nova e potencial rentável trilogia com pequenos personagens e cenas pra lá de convencionais. O ápice do convencionalismo está com a chuva, símbolo cultural de melancolia, presente em diferentes atos. Em um ainda ganha contornos românticos já que podemos ver a chuva através das sombras no rosto triste de Anastasia, gotas escorrendo pelo vidro da janela.

Outra coisa interessante é a trilha sonora e as canções bem pontuadas transitando em diferentes gêneros. O auge, e isso é uma questão particular, foi quando tocou Bachianas Brasileiras No 5, de Villa Lobos. Um deleite!

Sobre os atores, Dakota Johnson é muito melhor que Jamie Dornan, o segundo é prejudicado pelo roteiro esquemático que apenas lhe dá margens para soltar frases de efeito – deslocadas da narrativa e certamente copiadas das mais marcantes do livro – e justificar seus gostos com falácias. Johnson dá uma fragilidade condizente e expressões crédulas a sua personagem. O jogo de relação promovido pela dupla é coerente, com Anastasia dedicada a ser submissa de Christian Grey, contaminada pela sedução do homem que, como ele próprio exalta, gosta de ter controle de tudo. Eles negociam, no entanto ele sempre se impõe. Ela, capturada pelo charme de Grey logo nos primeiros minutos de filme, acaba recheada por simbologias: como o lápis que ela põe na boca cujo nome Grey está grafado. Logo ela morde os lábios, ela finge que resiste, porém se entrega. E tem mais, ele a desvenda. Ok, é ridículo. A jovem encantada Anastasia até poderia ser encarada como uma protagonista complexa, mas apenas faz parte de uma regra convencional de elaboração de personagem, frágil e subjugada frente a um macho dominante, igualmente a tantas outras grandes medíocres produções colocam. Eis uma triste constatação. Esse é 50 Tons de Cinza, um arrasa quarteirão sobre sexo, frágil em suas pretensões, no entanto possui alguma relevância e é realmente capaz de melhorar dependendo do que ainda virá.

 

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



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