Críticas

Published on fevereiro 11th, 2014 | by Marcelo Leme

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Crítica: A Fita Branca

afitabrancaO pré nazismo é ressaltado através de uma sociedade cuja utopia é registrada pelo tradicionalismo religioso que motiva segregações, humilhações e violência. O cineasta alemão Michael Haneke – diretor do oscarizado Amor (Amour, 2012) – explora o universo de uma Alemanha antes da segunda guerra, centrando nos acontecimentos de uma pequena vila dominada por um barão. O provincianismo se enaltece. Malevolências acontecem e ações desumanas preocupam os moradores tementes locais. Mergulharemos num filme de hipóteses e referências moldadas por uma abordagem bruta e crítica. No filme, que motivação tal civilização tem para tomar as aversivas condutas as quais testemunhamos? Quem se responsabiliza pela atrocidade social investida no universo religioso retratado? Haneke incita sem medo e explora o homem a sua maneira: pessimista, subversiva e violenta.

A Fita Branca é um trabalho convincente e penoso, fruto de um diretor cuja filmografia prioriza a agressividade humana produzida em prol de um bem próprio. Quem acompanha o cinema de Haneke conhece suas particularidades e suas tomadas minuciosas. Aqui o cineasta investe profundamente em alguns personagens, exibindo com frieza a dinâmica de uma civilização provinciana em formação, mostrando as mulheres inferiorizadas e as crianças punidas por conta de atitudes incondizentes as crenças de seus líderes. A motivação é dogmática. A fita branca do título destaca a personalidade das crianças e adolescentes, significando um símbolo de transição para a maioridade, ou, como acreditam, a responsabilidade – usar a fita é um símbolo de inocência e perdê-la é um propósito almejado. Signo de maturação.

A fotografia contribui com os detalhes físicos, as locações sufocantes são expostas em tomadas fechadas, o clima é pesado e o aparato P&B é atraentíssimo, funcionando para as pretensões do diretor em salientar o medo com seus princípios. As atuações de modo geral edificam, principalmente pela imponência rígida do ator Ulrich Tukur que vive o barão líder da comunidade.

O filme retrata um modo de funcionamento social cujo resultado foi conhecido na segunda guerra. A intolerância é denunciada partindo de geração para geração, vista nas cenas onde punidas, as crianças se ressentem com privações e crescem numa redoma castradora e pungente; e dessa forma, no longa, terminam como suspeitas dos estranhos acontecimentos recentes naquela região. Com um olhar investigativo, a esperança paira sobre um professor – aparentemente o único naquela comunidade – que em seu estudo passa a compreender aquela gente que convive com um aprendizado oprimido em nome da fé. Questionamentos são blasfêmias.

Esse professor ainda vive uma paixão. Acessamos uma representação sensível da hierarquia imposta após este se declarar para uma mulher e tempos depois pedi-la em casamento. Ele depara-se com duras condições para tal aceitação. O custo é ponderado. Desconstruído em cena, esse ideal fundametalista denunciado por Haneke é um registro histórico poderoso cuja metáfora poética narrada explicita o homem e seus valores obsoletos, não tão distantes de alguns caras que acompanhamos todos os dias em escândalos. O crime em nome da fé é um crime como qualquer outro.

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



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