Críticas

Published on agosto 25th, 2016 | by Marcelo Leme

0

Crítica: A Gangue

A inventividade nA Gangue Notao cinema está em sua composição artística, em seus arranjos. Há intervenção de várias artes para se conceber um filme. É a tal ideia da arte coletiva. Algumas se tornam referências e influenciam projetos posteriores. Buscando um exemplo irrepreensível, lembro de 2001 – Uma Odisseia no Espaço que segue atual e funciona da mesma maneira que funcionou quando fora lançado. Exemplos similares não faltam.

É bom perceber lampejos de originalidade, especialmente em tempos de tantos remakes, reboots, sequências e derivados. A Gangue, filme ucraniano elogiadíssimo e que esteve presente na 38ª Mostra em São Paulo, é um desses lampejos – e adiciono um adjetivo, lampejos autorais. O cinema é uma coletânea de imagens. Para o cinema, a fotografia é indispensável, já que esta deve contar a história independentemente do texto narrativo. Aí vem um filme cuja imagem é distintiva, pois não temos acesso aos diálogos de seus personagens. Trata de surdos. E não importa o que eles querem dizer, não importa a língua, não nos atemos aos seus sinais, atemos ao que a imagem dá conta de nos passar. É só e o bastante.

Não há voz no filme. Há são sons habituais do cotidiano. A lógica se inverte, nós passamos a fazer parte daquele universo enquanto espectadores, pois assistimos tudo quietos e inquietos, já que somos provocados pela narrativa vagarosa que nos oferta submersão. A ideia é justamente essa, fazer com que o público tenha uma experiência em um universo que desconhece, algo que certamente pessoas com tal deficiência sofrem quando estão no meio de pessoas que conversam. A lógica é subvertida a favor da sensação proposta. As atuações naturalizadas vem em composição, apresentadas através de enquadramentos que dão destaque a mise en scène, transpondo uma linguagem alternativa.

No percurso narrativo desenhado, a cinematografia ganha um viés mais amplo, com suas imagens fortes e sem pudor, a partir do movimento e dos sons diegéticos que acompanham o que nos é mostrado cena após cena. Perceba que há poucos cortes. O exercício é de pura imersão. O silêncio é suficiente em provocar as mesmas sensações que as trilhas sonoras provocam. A linguagem, desta maneira, é rebuscada em sua estruturação, já que diz demais em gestos e nos quadros, permitindo com sua vagarosidade e constantes planos longos que a gente adentre nesse universo, conhecendo cada espaço, cada objeto cênico, cada referência, cada dito calado; e mais, que a gente entenda, na singularidade de sua ideia, a mensagem de sua história simples, transmitida de uma maneira complexa e absolutamente fabulosa.

A perturbação da imagem atinge patamares polêmicos a partir de cenas cruciais, muitas delas envolvendo o sexo. Essas são intensas e fluídas, bem dirigidas pelo diretor Miroslav Slaboshpitsky. A questão é que não é exatamente o sexo que é mostrado, mas seu entorno, seu vislumbramento, uma vez que a faculdade auditiva dos personagens e a nossa enquanto espectador é inexistente, outros sentidos se aprimoram e a percepção visual se faz resolutiva. Essa é a diegese de seu diretor.

Então as atitudes dessa gangue aturdem com sua delinquência juvenil cujo propósito nos é obscuro: os roubos, as brigas, o deboche, a ausência de propósito moral, o comando da prostituição, a escadaria do prédio que esgota: tudo soma-se a ruína desses jovens iguais a qualquer outro em qualquer lugar do mundo que vivem condição social análoga e reajam anarquicamente. Nesse meio seguimos o passo a passo de um jovem protagonista corrompido, incerto de suas ações. Ademais, a obra também tem função de estudo de personagem a partir de uma transformação pessoal num sentido adverso num meio hostil contextualizado por execuções de distintos atos.

Em suas saliências e pretensões, há um furor atroz nas entrelinhas e na singularidade de seu compasso ao esboçar sexualidade e tudo que deriva desta. Estamos assistindo jovens unirem-se numa gangue. Lá eles experimentam tudo e transitam na máxima do sexo e das drogas a partir da prostituição de garotas, do aborto numa cena indigesta e do estupro. Não há qualquer pressuposição sensual desses atos. A sensualidade reside tenuemente somente no sexo consentido em uma linda cena, quando parte dos planos longos esboçando a beleza dos corpos nus de dois adolescentes. Note, é uma cena de experimentação, de tato.

É incrível como a crise nos países influem diretamente na qualidade de seus filmes. Correntes cinematográficas nasceram em períodos conturbados. O cinema grego, recentemente, tem apresentado filmes notórios. Aí vem esse exemplar ucraniano que retrata uma realidade sem sons, a partir de planos longos e contra-planos, evidenciando um coletivo de perturbação perpetuada pela condição social e econômica atual. Diante isso, afirmo: A Gangue é brilhante!

 

Comments

comments

Tags: , , , , , , , , ,


About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Back to Top ↑
  • ASSISTA NOSSOS FILMES DE GRAÇA

  • Parceiros

    Parceiro - Adorocinema
  • Parceiro - Centerplex
  • Inscreva-se no Youtube!