Críticas

Published on março 27th, 2014 | by Marcelo Leme

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Crítica: A Invenção de Hugo Cabret

invenção01Alguns filmes são mais do que comoventes. Presente no imaginário social como arte do entretenimento e representação do dia a dia, o cinema, que antes era desacreditado, tornou-se a principal representação artística, a arte do século XX. Sua origem é importantíssima, porém distante e desconhecida por muitos. Vários de seus primeiros filmes se perderam, um pedaço de sua história fora extinta. Nessa ideia, o genial Martin Scorsese nos presenteou com uma obra que recorda o passado com carinho e sensibilidade. A Invenção de Hugo Cabret é uma homenagem singela a história do cinema.

Um menino, Cabret (vivido pelo inglês Asa Butterfield da adaptação O Menino do Pijama Listrado), está morando sozinho numa estação de trem em Paris nos anos 30. É ele quem cuida dos relógios, assumindo as escondidas o ofício que era do tio alcoólatra. Antes de parar ali, vivenciou uma triste tragédia: seu pai (Jude Law), um gentil e sonhador relojoeiro, morreu num incêndio antes de solucionar um curioso enigma. Ele lhe deixou um autômato cujo funcionamento de suas velhas engrenagens possivelmente esconde uma valorosa mensagem, a qual o jovem acredita estar relacionada com o próprio pai. Motivado pela diligência, Hugo irá atrás das peças que faltam à máquina. Para chegar até elas, fará incríveis descobertas.

Apostando num visual fabulesco, Scorsese se aventura num solo novo em sua magnânima carreira. O diretor demonstra pouca familiaridade com o universo retratado, abusando de artifícios costumeiros – a exemplo recursos oníricos e flashbacks contemplativos –, porém de inigualável qualidade técnica. A fotografia de Robert Richardson busca a composição detalhada daquele cenário iluminado e se atém a particularidades, como a exibição da imensa biblioteca ou a sala cheia de velharias de um vendedor. Com bom ritmo e cenas emocionantes, a narrativa escrita por John Logan a partir do livro de Brian Selznick faz referência ao passado homenageando um dos mais famosos precursores do cinema, Georges Méliès.

A importância da história do cinema é ressaltada através do apreço de seus fiéis fãs e realizadores. Na história, um homem coleciona alguns momentos da carreira de Méliès (Ben Kingsley), guardando filmadoras entre outros objetos do cineasta. Após a 1º guerra, boa parte das centenas de filmagens se perdeu. O papel do tempo é fundamental nessa narrativa – simbolicamente representado pelos relógios da estação em que Hugo passa as horas – enfatizando o valor inestimável que temos com ele. No percurso traçado em busca da resolução do mistério guardado no autômato, seguiremos as investidas do jovem protagonista ao lado de Isabelle (encarnada pela talentosíssima Chloë Moretz). Mergulhamos na história do cinema, seus primórdios com os irmãos Lumiere, as primeiras exibições, entre elas L’Arrivée d’un Train en Gare de la Ciotat e Viagem à Lua. A fantasia proposta ressalta o reconhecimento que temos de nós e o que deixamos, o preço da história construída.

Um brinde a arte e a imaginação! A Invenção de Hugo Cabret é divertido e cheio de ótimas intenções. Soa a princípio como um filme infantil, porém transcende a suspeita logo em seus minutos iniciais, após a belíssima abertura onde adentramos no contexto da estação num plano único. O distanciamento das pessoas também é narrada, propondo os eventos com o mundo e como este sobreviveu – marcas da guerra são sempre mencionadas. A guerra está fincada e está, além de outros tantos lugares, na perna no inspetor (Sacha Baron Cohen) como memória, ele se mostra quase incapaz de se aproximar de uma moça (Emily Mortimer) devido aos empecilhos de uma prótese barulhenta. Fica a redenção e a possibilidade dos sonhos, da imaginação, dos livros e de nossa história, o que nós somos, o que fizemos e o dissabor do que, em algum momento, deixamos de fazer, sofrendo as consequências disso na recordação perpétua.

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



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