Críticas

Published on março 21st, 2015 | by Marcelo Leme

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Crítica: A Série Divergente: Insurgente

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Certamente o melhor mérito desse Insurgente é sua ambientação artística. É um filme elegante dentro do gênero da ficção que reúne características favoráveis a identificação do público interessado por esse universo. Os fãs da obra literária deverão adorar essa concepção. Já a adaptação da história eu não sei, pois não li. Após Divergente, as facções entraram em crise e aquele universo tornou-se caótico. É perceptível o quanto a obra está escurecida, como se aquele espaço estivesse encoberto por nuvens negras, explicitando as ameaças constantes sobre seus personagens principais em fuga, inevitavelmente confrontados por uma guerra que a rebeldia provocou. Acompanharemos uma oposição às distopias nesse filme que se constrói em esquivas, a partir de surpresas deslocadas e personagens cujo caráter está constantemente em dúvida. 

Há uma indagação pertinente sobre o poder. Também há um maniqueísmo sobre a política dos envolvidos, o que diminui a força dos embates. Creio que tantas explicações mais constrangem do que agradam. Notem o didatismo nas pretensões da vilã que precisa narrar e esclarecer ao público tudo o que pretende fazer. Esse é um descompromisso com a dramaturgia, uma vez que a imagem – atributo principal do cinema – fica por conta dos vigorosos efeitos enquanto a narrativa segue outra via, torna-se narrada e não interpretada, o que justifica os deslocamentos dos vários personagens. Cada um parece independente. Até Tris, a protagonista vivida pela carismática e talentosa Shailene Woodley, aparece desagradável em instantes mais íntimos. Esse desagrado não diz respeito ao seu comportamento confuso, temente quanto ao seu papel naquele contexto. Ela sente-se culpada frente aos atuais acontecimentos, consequência de tudo que vivenciou, rendendo-lhe (in)evitáveis perdas. 

Também incomoda a mutação comportamental de seus personagens, provavelmente esse problema provém da má adaptação do roteiro, ou melhor, da inadequação da história dentro do cinema. Informações demais comprometem e a lógica fica à deriva, com pontos soltos e buracos comprometedores. O mal de adaptações populares é querer abarcar tudo num espaço inconveniente. Com menos se faz mais. Tal questão não diz respeito unicamente aos personagens, em suas personalidades, mas recai na noção de tempo e na série de acontecimentos vagamente explorados por falta de tempo ou por temor em provocar qualquer esgotamento no público. Observem que o filme nem se prolonga tanto e alguns planos se repetem com outra roupagem. Não poderia nem afirmar que Insurgente é um filme exclusivo para fãs, mas certamente este não consegue funcionar tão bem como um filme independente já que sua primeira parte é demasiada importante. É obrigatório ver Divergente antes desse! Atentem-se. 

Já a construção de sua protagonista é positiva, a mulher enquanto heroína, uma jovem complexa atrás de mudança, cortando até seu cabelo. Aliás, seu cabelo diz muito sobre si, sua decisão, sua opção visual que implica na forma com a qual outros poderão olhá-la. No imaginário popular mulheres ‘precisam’ ter cabelos compridos. Quem disse? Tris se assume enquanto mulher e isso independe de corte, roupa ou modos. 

Prejudicado pelo conteúdo, o filme se salva graças ao ritmo. O diretor Robert Schwentke é hábil na execução da ação, tudo é enérgico e as cenas recortadas são ágeis e empolgantes. Como de hábito, a trilha pesada contribui para o acréscimo de tensão em alguns atos, deixando-os ainda mais proeminentes. Pense neles sem o som pulsante, será que funcionariam? Que bem faz a trilha ao cinema. O silêncio também faz, mas jamais teria serventia aqui. Insurgente não é medíocre e nem desnecessário, tem uma ideia autêntica e expressiva e ainda conta com um elenco respeitável – soma-se aqui a versada Naomi Watts –, mas é uma obra mal executada que raramente faz justiça a proposta ofertada e despenca sobre sua falta de pretensão cinematográfica, transformada num enlatado comercial usual e ineficiente.

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



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