Críticas

Published on abril 4th, 2017 | by Marcelo Leme

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Crítica: A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell

A imagem endossa a ideia de futuro com uma beleza sublime e ao mesmo tempo assustadora. Visualmente, A Vigilante do Amanhã passa toda uma sensação de imersão fantástica e futurista similar a que obras definitivas do gênero, como Blade Runner, conseguiram fazer. É um universo fabuloso montado pelo designe de produção, dignificando a proposta e a lógica de seu gênero, um acerto que Hollywood dá quando se preocupa verdadeiramente com o fascínio o qual só o cinema é capaz de realizar. E esse fascínio é o que há de melhor no filme.

Já a ideia, ainda que engenhosa, termina transposta pobremente, com filosofia de colegial e existencialismo de butiquim. Uma abordagem inapropriada, mas previsível. Felizmente, porém, o filme tem atributos coerentes ao seu argumento, mesmo que por vezes padeça na abstração: um conto sobre corporações que opõe liberdade individual e despotismo, adornado por máquinas, ciborgues e humanos, numa onda cyberpunk.

É notável o interesse saudosista por trás de sua realização. A obra é baseada em um manga de Masamune Shirow, que por sua vez influenciou diversas concepções, tanto em animes quanto no cinema. É uma pena que a beleza do visual seja soberana a todo o resto. A história pouco diz – uma, porquê identificamos várias similaridades com outros filmes; outra, porquê aqui ela é bem mal desenvolvida. É um universo distópico que transmite sensação de opressão com anúncios holográficos gigantes e com uma chuva incessante, o básico de uma concepção futurista em regimes totalitários encenados. Você assiste a tudo e quase dorme devido às repetições em poucas variáveis, com quase nada a contar.

Aí você percebe a fragilidade da concepção quando diante de eventos e diálogos que poderiam possibilitar qualquer ponto de discussão que refletisse os temas sugeridos por seus rasos personagens, o texto se curva a narrações em off expositivas e esquemáticas que contribuem para a compreensão do espectador e dá a ele a certeza que os roteiristas não são bons o suficiente para encontrar soluções melhores. Com isso os personagens enfraquecem, o universo vira um ínfimo quadro e a narração aparece tal como frases de power point em slides universitários de primeiro período.

O clima é sempre tenso, obscuro e absolutista, funcionando sensorialmente motivando a imersão. É bom ver que o filme não se entrega a risos fáceis ou alívios cômicos tal como a moda de quase toda grande produção contemporânea. Aliás, essa é uma característica de seu diretor, Rupert Sanders, que ainda não tem um grande trabalho no currículo, mas que ao menos mostrou-se competente com o pouco que fez. Sanders conta com duas estrelas no elenco, Juliette Binoche deslocada num papel rasteiro; e Scarlett Johansson, um dos rostos mais cobiçados de Hollywood que aqui vive a protagonista Major, praticamente reprisando seu papel em Lucy, de Luc Besson.

E a presença do Takeshi Kitano ali no meio? Sensacional!

Eis uma boa ideia cuja concepção não faz justiça a ela. A tendência da ocidentalização demarca a limitação imposta em Hollywood. A protagonista: uma ocidental. Não havia como fugir disso. Assim me pego pensando em como seria bom ver Min-hee Kim como protagonista. Perceba também a trilha sonora que pouquíssimo absorve do meio e da cultura oriental, existindo com um peso incondizente, podendo funcionar genericamente em outras produções, como Transformers. Perante tudo isso, afirmo não ser um filme ruim. Aliás, é um bom filme que deixa escapar consideração melhor por pretender ser um enlatado quando podia ser muito mais.

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



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