Críticas

Published on maio 16th, 2017 | by Marcelo Leme

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Crítica: Alien: Covenant

Quando trata-se de personagens antológicos voltando às telonas, a expectativa redobra devido a oportunidade em revisitá-los, em conferir um novo capítulo que possa honrar seu passado cinematográfico e incitar a nostalgia. Alien retorna em Alien: Covenant, mas isso pode ser questionado. O que retorna, de fato, é a ideia por trás do personagem, numa vertente bem mais preocupada com a discussão a cerca do mito da criação. Dentro dessa perspectiva, referências se acumulam: o androide que guia humanos; a música de Wagner – amigo/compositor contemporâneo a Nietzsche e a sutil ligação ao conceito além do homem; a literatura e menção a Mary Shelley e Byron; a fé como crença absoluta e terminante. São recursos vaidosos que contribuem com a concepção da história e dão alguma força ao roteiro, mas terminam desperdiçados por serem meros artifícios em uma obra que não sabe bem o que fazer com eles.

Mais do que qualquer outra coisa, Alien: Covenant é uma sequência do bem sucedido Prometheus (2012). Ridley Scott resgatou a franquia Alien, a qual o mesmo iniciou em 1979, com o excepcional Alien, O Oitavo Passageiro. Sobre a sombra de sua própria criação, o cineasta buscou alguma novidade e encontrou apenas escuridão num cenário de riquezas incertas. Alguns luzires criativos brilham, porém não são alcançadas pelo cineasta, que aposta dessa vez na nave Covenant que está a serviço de uma expedição que visa colonizar algum planeta. Seu comandante (um pouco convincente Billy Crudup), movido pela fé, leva a tripulação até um globo aparentemente inabitado.

É impressionante como a tripulação remete a de Nostromo, nave do clássico de 79. Naquele tinha Sigourney Weaver como protagonista vivendo Ripley, icônica personagem feminina; neste novo, a atriz Katherine Waterston vive Daniels, que dota de semelhança física, mas não goza da profundida e força da consagrada de outrora. Eis outra sombra que o filme precisa lidar. Já Michael Fassbender reaparece e é ele quem segura os raros bons momentos da histporia. Com seu reconhecido talento, garante uma ambiguidade temerosa a Walter e ao reprisado David (o mesmo de Prometheus). Ainda que não esteja em um de seus melhores papeis, tem performance notável.

Há algumas cenas que fortalecem o roteiro, a maioria delas envolvendo música. As composições clássicas alinham a ideia de criação através da composição, repetição e aprendizado. Quando A Entrada dos Deuses em Valhalla, de Wagner, é executada num piano, compreendemos os subterfúgios de seu realizador, evocando alguns recursos já usados em suas obras anteriores. Mais tarde, outros momentos surgem com similar finalidade, como a bela cena da flauta, representando passado e futuro entre dois personagens unidos por um objeto transicional. É também a cena que reforça o objetivo da obra, sendo a máquina, novamente, o antagonista que limita o homem, tal como HAL 9000 de 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968), que fora absolutamente mais feliz.

Há muito a dizer, mas o roteiro se enrosca na série de tentativas de reinvenção, ao não conseguir explorar nada que apresenta. Gosto quando faz referência a poesia romântica da mesma maneira que ressalta a música, e também como trata de Shelley e relembra Frankenstein. O que fica após a sessão? Pouca coisa. Para se ter uma ideia, não duvido que este seja lembrado no futuro pela ótima cena do banho, com o simbolismo clássico da representação fálica. Alien: Covenant não é de todo mal, mas faria muito mais sentido se chamasse apenas Covenant e entregasse um material apropriado a sua proposta de reinvenção inspirada por uma ideia que ainda ecoa, e assim não precisasse ser comparada aos filmes anteriores como inevitavelmente é. Sob a luz é mais fácil se revelar.

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



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