Críticas

Published on março 30th, 2016 | by Marcelo Leme

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Crítica: Batman vs Superman: A Origem da Justiça

placabatman vs supermanUm dos filmes mais esperados de todos os tempos foi uma decepção. Mas não, não é esse desastre todo que muita gente vem apontando. É um ótimo filme ruim, pra falar bem a verdade. Ao final da sessão, ainda sob o clima gerado pela obra, me peguei pensando: tem muita coisa errada aí, muita coisa que poderia ser evitada. Há um grande filme ali! Há um grande filme perdido no meio de toda aquela bagunça e das cenas de bagatela, um filme não alcançado por seu diretor, Zack Snyder, que com seu delírio e seu cinema de autor kitsch, arruinou a reunião dos dois mais significativos heróis dos quadrinhos.

Numa rápida olhada na internet, é visível que a maioria das pessoas vem criticando duramente o filme. Este merece. Os que gostaram, pelo menos a maioria desses, gostaram porque conhece os quadrinhos, tem embasamento sobre os heróis e os acontecimentos em torno deles, algo que o filme de Snyder não dá. Esse é um problema! Não importa se é fiel ou não aos quadrinhos, o que importa é o que nos é apresentado em cena, independentemente da obra original, afinal, são independentes um do outro. O roteiro ruim não abarca seus heróis – e olha que teve cerca de 160 minutos para isso. Nem estou considerando a cena constrangedora em que apresenta os outros integrantes da Liga da Justiça. É realismo misturado com realismo fantástico. É duro fazer essa intersecção dar certo.

Voltemos a pensar no papel de Zack Snyder. Diretor de preciosidades como Watchmen e do impetuoso 300, não apresenta muita pirotecnia aqui, tal como a maioria dos filmes de super-herói vem fazendo. Ótimo! Ele dá conta de evocar o clima sombrio que deverá ditar o rumo estético e atmosférico da franquia. Também não se preocupa em fazer piada o tempo inteiro, o que faz de sua obra bem mais madura. E qual o problema então? Nessa linha que coloquei, trago as razões por este ser ótimo. E qual a razão de ser um ótimo filme ruim? Ora, se propõe ser um grande filme e consegue, no máximo, ser um compilado de recortes com raros bons momentos juntamente a outros completamente injustificáveis. E não digo nem no caráter de se levar a sério ou não. Acho que ele se leva e isso é positivo.

O roteiro, como já dito, é problemático. Eu poderia citar vários exemplos, mas me concentrarei em um específico pra você compreender a relevância de um roteiro para as finalidades de uma narrativa e consequentemente ao filme. Se flashbacks aparecem para dar peso a cenas que deveriam ser naturalmente emotivas, então há um problema em sua elaboração dramática. Flashbacks, nesse caso, não passam de muletas, já que na montagem, são utilizados com o intuito de dar peso a cenas que não tem peso algum. É pura falha de seu diretor ao tentar conduzir momentos ternos. E perceba, tem flashbacks e sonhos em demasia. Da mesma forma, há câmera lenta em cenas que não fazem sentido algum, tal como uma em que Lex Luthor caminha por um corredor. Na boa, pelo menos meia hora de filme existe sem razão para tal. Um corte e não faria nenhuma falta.

Mas a câmera lenta é característica de seu diretor! A mesma foi usada em todos seus filmes! Muitos podem lembrar isso. De fato, e são exatamente esses momentos que são considerados os piores em seus outros filmes. O cinema, em mais de 100 anos, encontrou maneiras de contar histórias sem tanta fresquidão e os resultados são bem mais pertinentes frente aos objetivos buscados. Zack Snyder é ótimo com a imagem. Consegue dar imponência notável a seus personagens, capta cenas memoráveis e enquadráveis; e até arrisca um competente plano sequência em uma luta. Logo depois, afunda em seu exagero e banalismo. Batman Vs Superman – A Origem da Justiça acaba se tornando aborrecido. Absurdo.

Seus atores não tem nenhum momento célebre, pois Snyder não dirige atores. Em qual filme seu algum se destacou? E perceba que aqui tem grandes nomes como Jeremy Irons, Diane Lane, Holly Hunter e Amy Adams. Ben Affleck, o Batman da vez, foi questionado quando escalado e mostrou que é capaz de dar dignidade ao homem morcego. Um adendo aqui: que ótimo personagem foi o Batman, com uma amargura e melancolia que lhe deu muita complexidade. Bem, Affleck não tem uma grande atuação. E ele não precisava, ele não iria querer ganhar um Oscar. Foi competente e, por infelicidade, mal dirigido! Percebam: no início do filme, Ben Affleck está perdido em cena. Em dois momentos ele está endurecido, como se no segundo anterior alguém tivesse gritado ‘ação’. Snyder não o conduz. Depois de meia hora de projeção, melhora, quando parece que a direção de atores ficou a cargo de outra pessoa. Henry Cavill é o típico galã, mas sofre para se expressar sem não ter de franzir a testa. É tudo o que consegue fazer. E Gal Gadot, outra boa surpresa, oferece uma Mulher Maravilha que de fato é uma maravilha. Também não atua, desfila.

Faltou alguém? Grandes vilões geralmente são vividos por grandes atores. Para citar 4, dentro do universo da DC nos últimos 10 anos, lembro de Kevin Spacey em Superman – O Retorno (2006); Heath Ledger com seu icônico Coringa em Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008); Tom Hardy em Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012); e Michael Shannon em O Homem de Aço (2013). É ótimo viver vilões! Isso parece ser unanimidade entre os atores. Aqui, coube ao eficaz Jesse Eisenberg representar uma versão bastante jovem de Lex Luthor. Não faz feio, mas é mal administrado. Alguém deve ter dito que seria uma boa ideia trazer traços do Coringa de Ledger. Não seria ruim mesmo, isso explica seus tiques. Ele atua de maneira descontrolada, divertida e se divertindo com o papel, mas às vezes em tons tão exagerados que soa caricatural. Zack Snyder parece ter gostado da imagem representada e se esqueceu de como isso soaria em frente à câmera, em movimento.

O roteiro fragmentado apresenta pouco conteúdo. As motivações são esdrúxulas e pouco convincentes. Em certos instantes, consegue encontrar margens interessantes para diferentes discussões. Da mesma maneira que em O Homem de Aço, a referência a um ser messiânico dá bastante força a história, sendo um de seus elementos mais vigorosos e funcionais. Os comportamentos alterados graças a vivências, decepções e desilusões, apresentado tanto por Clark Kent quanto por Bruce Wayne, fundamentam a dinâmica dos personagens frente ao contexto que enfrentam em Metrópolis e Gotham. Eles absorvem a violência e as reações são diversas, alteradas por suas políticas e filosofias. Há ótimas frases simbólicas que conferem ideologia temática às pretensões do texto dos roteiristas, e ao mesmo tempo há diálogos tão constrangedores que fica muito difícil não se ruborizar na sala de cinema. Fica a lição de que nem sempre o que está no papel é o que deve ser dito. Eu poderia citar dois ou três desses momentos, mas entregaria spoilers.

E por último, a própria imagem, seus efeitos e suas funções para o filme. O que deveria ser a melhor coisa do filme, diante quem é seu diretor, acaba sendo um excesso intrincado. A batalha magnânima é fatalmente estragada pelo excedente CGI. É ridícula! Para se chegar até ela, muito se fez. Planos lindíssimos estão entre eles! Aprazíveis ao olhar, especialmente de quem é fã dos heróis. A representação é para eles, para se emocionarem ao ver seus personagens preferidos e isso é absolutamente significativo. Imageticamente, bons momentos e outros não tão bons assim se somam, criando facetas, sempre com uma coloração em paletas escurecidas. O exagero se mantém. Um exemplo: a cena inicial tinha potencial de ser lindíssima, um prólogo sintomático. Um colar de pérolas se desmancha em cena. Com heranças do noir, tal cena é conduzida num visual arrebatador, mas narrativamente frívolo e clichê. Ela consegue resumir o que é o filme. Isso já foi dito: um ótimo filme ruim. É maquiagem demais para esconder tanta superficialidade cinematográfica.

Batman, Superman e Mulher Maravilha são importantes e grandes demais para um filme tão pequeno. E há sílabas demais aí!

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



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