Críticas

Published on março 13th, 2015 | by Marcelo Leme

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Crítica: Birdman ou a Inesperada Virtude da Ignorância

modeloCineemProsaBirdmanEntendo Birdman como uma poderosa sátira. Deste modo, conforme alguns colocam, não é um filme convencional. Há uma notoriedade interessante com relação ao percurso de uma estrela em meio a sua cuidadosa narração. Um astro esquecido, pode-se assim dizer, é o protagonista desse filme, alguém que busca por redenção. E não, não trata-se de uma redenção tradicional, mas a de um artista enquanto astro, enquanto celebridade. Alguém que deixou um papel de muito sucesso – o Birdman do título – e desde então amargou o ostracismo, algo indesejado para qualquer ator. Acompanhamos então Riggan Thomson (Michael Keaton) tentando ressurgir da poeira do desterro ao adaptar, dirigir e estrelar uma peça. É um filme que denota precisamente o quanto o cinema é a arte da ilusão e o quanto isso é extraordinário.

Há algo especialmente marcante por trás da concepção dessa obra: a relação entre o diretor e o fotógrafo. O cineasta mexicano Alejandro González Iñarritu e o diretor de fotografia Emmanuel Lubezki trabalham em sintonia, pensando a cinematografia e a ilusão do plano sequência. Há sim uma ideia de onde acontecem os cortes, no entanto a leveza e a singularidade dos movimentos de câmera fluem. Como a câmera transita pelos corredores, quartos e palcos impressiona, pois abarca todo o contexto lançando o público no emaranhado de significados, trabalhando real, imaginário e tempos distintos. A cena de abertura, por exemplo, já nos coloca em dúvida de sua ordem ao apresentar o protagonista flutuando. E tem a cena final simbólica.

Birdman ou a Inesperada Virtude da Ignorância – esse segundo título é belo e apropriado – é rico em vários sentidos e, ainda que tenha uma profundidade conceituada e o recurso do plano sequência, jamais exaure seu público. É fato que quem não está habituado a ver filmes com frequência ou esteja limitado unicamente a produções puramente comerciais sentirá algum incômodo pela proposta que foge a regra do padrão, mas não demorarão para se habituar ao ritmo e estilo. E os cinéfilos que em algum momento deverão lembrar de Wilder com seu luxuoso Crepúsculo dos Deuses ou Cassavetes com seu vigoroso Noite de Estreia provavelmente se dividirão frente a proposição de Iñarritu que lança um filme absolutamente divergente do que já havia feito – e reconheço ser um apreciador de seu trabalho, especialmente de Amores Brutos, 21 Gramas e Babel.

O fato é que a ilusão disposta e a narrativa transfigura-se a ponto de funcionar como metalinguagem. O personagem de Keaton é uma mentira. O de Norton é uma mentira. A de Emma Stone é uma mentira. A encenação é uma mentira. O baterista é uma mentira. E tudo isso junto, transposto a um ideal de realidade, percepção envolvente pela forma de arte da fotografia narrada transforma-se em verdade para nós. Keaton viveu Batman há 22 anos, tal como o Birdman no filme. Norton é reconhecidamente um ator difícil de trabalhar, igualmente seu personagem aqui. Emma Stone que igualmente Keaton e Norton, estiveram presentes em filmes de heróis, influi numa crítica bem fundamentada. A encenação é uma representação real e o baterista, nos bastidores, é a personificação de alguém que no cinema, a julgar pela trilha, não existe visualmente. Assim Birdman se constrói, sua genialidade consiste na forma com a qual se monta e modela enquanto narrativa, pois fala essencialmente de cinema de um modo que ninguém fez.

Não posso deixar de evidenciar Michael Keaton que vive o melhor personagem da carreira ao doar de si. Lembrei-me imediatamente de Mickey Rourke em O Lutador. Não é somente uma interpretação, mas uma vivência. Há vários momentos na obra em que ele fala do esquecimento e envelhecimento enquanto se revela envelhecido e esquecido. É tocante e brutal.

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



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