Críticas

Published on junho 5th, 2014 | by Marcelo Leme

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Crítica: Biutiful

EsboçoAltereabiutifulQuem acompanha a carreira no cineasta Alejandro González Iñárritu irá notar algo diferente em seu novo trabalho: o roteiro. Esse é o primeiro projeto do diretor depois do rompimento com o parceiro roteirista Guillermo Arriaga após os ótimos bem sucedidos longas Amores Brutos (Amores perros, 2000) 21 Gramas (21 Grams, 2003) e Babel (Babel, 2006). Esse Biutiful que estreou em 2011 no Brasil – foi um dos cotados para receber o Oscar de melhor filme estrangeiro – é um filme intensamente triste desde as primeiras cenas, trazendo um pai de família, Uxbal, sofrendo de uma doença terminal e ainda tendo de enfrentar outras adversidades como questões financeiras e a bipolaridade da ex esposa.

Não é somente ele que parece fazer parte de um universo hostil, mas os outros personagens que de alguma forma se ligam ao protagonista também convivem com horrores particulares, destaque para os chineses homossexuais.   O assunto da imigração e tragédias que envolvem famílias sempre apareceu na obra do diretor. A diferença aqui é como a história toda se desenvolve. É aí que Iñárritu peca. A narrativa ainda traz um modelo cronológico, mas de forma áspera e confusa. A montagem é estranha. Não flui com clareza como nos tempos de Arriaga e põe o espectador em constante dúvida sobre o que está rolando em cena. A partir do segundo ato da trama, as coisas funcionam melhor, no entanto fica pra trás aspectos importantes do filme que tão bem diagnosticam o pessimismo de seu diretor sobre o mundo retratado. Tudo é filmado de maneira prioritariamente trágica e suja onde os personagens estão completamente desfigurados inseridos naquele mundo caótico e infeliz.

O vislumbre de mundo de Iñárritu assusta.  A história se passa em Barcelona, e longe de ser retratada como aquela magnífica cidade a qual outros filmes exploraram de maneira turística, aqui a cidade aparece fria, agressiva e solitária, reunindo em seus subúrbios famílias imigrantes, especialmente africanos e chineses. Uxbal aparece como o facilitador da chegada desses povos até a cidade e dá abrigo a cada um. Bem caracterizado, o protagonista soma condutas distintas no longa. Se a menção a fragilidade e deturpação do mundo tão evidenciada pelas obras de Iñárritu acontecem com maior impacto aqui, deve-se exatamente ao personagem Uxbal que não só é o precursor das relações daqueles povos, mas também é um médium, evocando diferenças de distintos mundos onde a terra parece ser uma penitencia.

Biutiful sugere a grafia errada da palavra inglesa Beautiful que remete ao belo, algo que não existe no filme. A distorção da palavra metaforiza o drama dos personagens cujas vidas carecem de brilho, beleza e sentido. Seu cerne é de fato Uxbal, e seu personagem ganha força graças a Javier Bardem, um monstro em cena, garantindo um desempenho marcado pela inquietação. Seu personagem é muito bem explorado, o conhecemos e o entendemos em seus atos, as cenas durante o jantar junto às crianças são tão bem caracterizadas, simples e simbólicas, onde se revela incapaz de prestar a atenção nas perguntas e afirmações proferidas por seu filho. Orgulhosamente retratado por um elenco inspirado, o filme só não é melhor graças a cenas que parecem distantes da proposta do argumento, problema saliente de seu roteiro – há quem critique o modo de ver o mundo do diretor, mas é justamente essa particularidade que faz do filme absolutamente melhor.

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



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