Críticas

Published on fevereiro 13th, 2017 | by Marcelo Leme

0

Crítica: Cinquenta Tons Mais Escuros

av50tonsAlguns filmes permanecem intactos na memória pelo que ofereceram ou pelo que significaram. Ou pelo menos algumas cenas permanecem. Ou características específicas das mesmas. No caso de Cinquenta Tons de Cinza, me recordo facilmente do desenho da luz, de como o filme fora visualmente atrativo e bonito, sabendo trabalhar com paletas de cores acinzentadas numa óbvia alusão a identidade de seu protagonista, que não à toa dá o título à obra. Em Cinquenta Tons Mais Escuros, esse traço se mantém, conservando a identidade adquirida. Essa segunda parte da franquia segue belíssima visualmente, mas despenca narrativamente, com situações tão fugazes que fica difícil não se aborrecer, seja com a série de conflitos pobres ou com a correria em desenvolver a história. Também é mais comportado do que o anterior.

Quando se é refém de adaptações que obrigam o roteirista a preservar quase tudo que o livro aborda, sai filmes como esse. Cinquenta Tons Mais Escuros é uma obra estéril, que nada desenvolve e muito – pouco – mostra.  Sua beleza plástica rima com o universo suntuoso de Christian Grey que goza de seu poder econômico e não cansa de ressaltar tudo o que tem em breves frases convertidas em instantes de humor. Piadas amarradas, como aquela em que afirma ter comprado uma empresa aérea, como se tivesse comprado uma trufa, contribui para seu ego e seu – duvidoso – caráter. Serve também como um contraponto com todos em sua volta, inclusive Anastasia Steele, a quem se declara apaixonado. Essa diferença financeira entre os personagens, acredite, é o tema mais profundo que o raso roteiro de Niall Leonard encontra.

Conhecemos Christian Grey pelo mito criado em sua volta, no sensacionalismo propagado pelos livros, nos memes de blogs de humor e nas conversas ‘problematizadoras’ a cerca de sua índole. O Grey de Jamie Dornan não faz jus ao personagem que ouvimos falar por aí. Com a expressão de um ventrículo, se dá bem quando raramente fala e se dá melhor ainda quando não aparece em cena. Explico: o mito obscuro que envolve seu nome o torna melhor, pois parece uma figura fabulesca, inacessível, inalcançável, presente no desejo reprimido de Anastasia Steele. Quando em cena, precisa chamar muito mais atenção com músculos e nas mecânicas cenas de sexo. Bom para Dornan que poderá estampar capas de revistas teens. Já Dakota Johnson é melhor, tem mais a oferecer a uma personagem confusa e insegura, dividida entre o sim e o não.

Os conflitos são pobres, aparecem entre tramas esquemáticas e resolvem-se rapidamente. O roteiro apresenta o problema e minutos depois entrega a solução. Nada vai além e tudo termina indiferente. Justamente aí que questiono a adaptação, em querer abarcar uma série de conflitos que na literatura provavelmente tomaram muito mais tempo do leitor do que o cinema tomou do espectador. Provavelmente estes conflitos significaram algo a mais aos personagens do que a mera exposição vista. Não li o livro, mas suponho que estes conflitos tinham alguma importância lá e consideraram relevantes para o filme. Isso matou o filme! Um exemplo? Contém spoilers >>> A cena do acidente aéreo serve para quê? Se você simplesmente cortar a sequência inteira, não sentirá falta de nada. Não contribui com nenhum personagem e tampouco para o desenrolar da história. Chega a ser ofensivo com o espectador. É um filme medíocre numa embalagem requintada, pois é bonito demais. Só. Teria funcionado melhor para a TV.

James Foley, o diretor, é um nome relativamente famoso que surgiu lá nos anos 80. Não tem no currículo nenhuma obra tão expressiva. Após espiar sua filmografia, imediatamente lembrei de Medo (Fear, 1996) e de uma cena num parque de diversões que muito se assemelha a cena do elevador vista aqui. Se assistiu ambos, notará a similaridade dos planos e cortes.

Comments

comments

Tags: , , , , ,


About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Back to Top ↑
  • ASSISTA NOSSOS FILMES DE GRAÇA

  • Parceiros

    Parceiro - Adorocinema
  • Parceiro - Centerplex
  • Inscreva-se no Youtube!