Críticas

Published on fevereiro 29th, 2016 | by Marcelo Leme

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Crítica: Deuses do Egito

Deuses do Egito PlacaPoucos filmes foram felizes ao tratar de mitologias. Poucos mesmo. Esse Deuses do Egito é um exemplo perfeito do quanto um filme com essa intenção pode ser desastroso, entrando assim para o grupo seleto das adaptações ou apropriações abomináveis. Uma breve contextualização: O Deus Osíris (Bryan Brown), rei do Egito, está renunciando ao trono a fim de entrega-lo a seu filho, Hórus (Nikolaj Coster-Waldau). Seu irmão Set (Gerard Butler), insatisfeito com a nomeação do sobrinho, aparece para brigar pelo reinado. Ele mata Osíris e causa um estrago em Hórus. Escraviza os mortais e reina como um déspota. Então lá vem vingança. Para um filme pouco inteligente, qual outra motivação teria?

O elenco é atrativo, mas os atores parecem tão deslocados e desinteressados. Gerard Butler aparenta tentar buscar alguma inspiração em seu Leonidas, de 300 (2007), mas nada encontra. A impressão, às vezes, diante a visível falta de interação entre eles, é que filmaram por obrigação, descontentes com o material. Malditos contratos. Tal insatisfação é um problema da direção de Alex Proyas que mostra-se incapaz de desenvolver seus personagens e principalmente motivar seus atores a minimamente soarem convincentes em cena. Ou o problema seria em nossa fé cênica falhar em visualizar deuses improváveis? A polêmica da representatividade cai bem aqui.

Os atores estão esquemáticos, mecânicos e rendidos a truques. Não há qualquer sintonia entre eles e tampouco empatia nossa para com eles. Afirmo com deboche que a grande empatia com os personagens seja a vontade em nos cegar frente a série de constrangimentos que testemunhamos. É de ficar enrubescido quando não se está cochilando.

O filme também é brega. E que palavra infeliz para utilizar em um trabalho com esse rico universo. A impressão que dá é que trata-se de uma adaptação feita por algum estúdio ruim tendendo a um viés de sátira. Os efeitos são tão bons quanto os vistos no início desse século. O roteiro não demarca limites e amontoa situações a fim de bagunçar sua lógica em detrimento da almejada diversão que raramente proporciona. Eu adoraria dar alguns exemplos, mas seriam spoilers, todavia, tentarei mencionar um instante: perceba a tensão entre Bek e Zaya durante uma fuga. Algo muito importante acontece, mas é tratado indiferentemente, tal como todo o resto do longa. No fim é isso, um filme indiferente a qualquer coisa.

Visualmente quase soa atraente, mas o excesso de capricho o arruína. Dá pra identificar a mentira do universo criado. Um descuido a mais e teríamos visto o fundo verde. Notem que a câmera não visa um contexto, mas a captação de detalhes do que está no quadro. Essa é uma intervenção artística que arrasta o filme, pois é explorada com o intuito de mostrar que as coreografias ensaiadas deram certo. Tal exibicionismo embaraça e arrasa ainda mais o longa.

Ok, nada funciona. Até o extraordinário Geoffrey Rush aparece risível como Rá. Penso que talvez as fantasias – prefiro chamar assim o figurino – pesam tanto que praticamente roubam a atenção de quem às usa. Que benefício isso teria a uma história? No carnaval teria validade. A direção ausente, os atores distantes e a narrativa comprometida pelo roteiro ruim credenciam Deuses do Egito a ser um dos piores filmes do ano, sendo esquecido pelo público em poucas horas após os créditos; mas jamais será esquecido pela Lionsgate, sua produtora que já entende que este deverá ser um grande fracasso de bilheteria. Não há Deus que o salve.

É como brincam: há coisas que não podem ser desvistas.

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



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