Críticas

Published on julho 3rd, 2015 | by Marcelo Leme

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Crítica: Divertida Mente

Divertida MenteCom Divertida Mente a Pixar reencontrou o caminho da originalidade que sempre lhe foi característica. A animação é singela, apresenta seu tema com uma inventividade fascinante, de modo que qualquer espectador terá algum tipo de identificação projetiva diante personagens tão representativos e significativos. Trata-se de uma leitura fictícia sobre o cérebro, o recinto de suas emoções, estando cinco delas – Alegria, Tristeza, Nojinho, Medo e Raiva – gerindo os comportamentos de Riley, a menina protagonista que acompanharemos da infância a adolescência.

A beleza da trama reside na dinâmica das relações entre as emoções, especialmente na oposição entre Alegria e Tristeza. Questionamos inicialmente: o que essa animação pretende? Como ela dará conta de expressar sentimentos através da faceta de personagens? Tememos que um tema como esse, a julgar tão íntimo, preciso e profundo, não ganhe a atenção considerável frente seu notório potencial ou não se desenvolva devido sua provável complexidade. A coisa ainda fica mais intensa por tratar de desenvolvimento humano, culminando na adolescência, época em que tudo muda. O roteiro acompanha cuidadosamente cada passagem e seus personagens impressionam e a expectativa temida felizmente despenca.

Há dois planos a serem vistos e pensados: o que está dentro e o que está fora da menina Riley. Há dois filmes complementares por assim dizer. No contexto exterior acompanhamos uma criança conviver com insatisfações e não lidar bem com elas. Há quem critique seu comportamento e suas escolhas. Quanto ao interior, esse é o que mais interessa ao filme, acompanhamos como cada emoções lida com as frustrações da vivência do cotidiano de Riley, como que cada uma assume o controle à sua maneira. Isso é inteligível e metaforiza funções neurológicas.

Estando as emoções personificadas, embarcamos numa ótica relativamente próxima a de Toy Story, quando os brinquedos ganhavam vida. Basicamente esse é o universo: as emoções ganham particularidades, com elas riremos, com elas choraremos. A profundidade dessa temática pode ser comparada a profundidade da consciência da menina Riley, local onde Alegria e Tristeza acidentalmente se perdem e revisitam momentos, transitam por memórias e conhecem de perto cada ilha edificada por personalidades. São os campos gerenciados. Os detalhes cuidadosos do roteiro junto a técnica sublime da Pixar evoca uma das animações mais consideráveis dos últimos anos.

Colorido, divertido, afetivo e melancólico, é provável que Divertida Mente permaneça na mente do espectador por algum tempo após a sessão por levantar uma série de questionamentos que poucas animações foram capazes de fazer. Os estúdios Pixar assumiram um risco ao elaborar essa sua nova obra. Pelo bem do cinema, encontraram a entonação ideal para estabelecer conceitos à respeito de emoções tão intensas, especialmente em razão da Tristeza, essa tão discutível, em tempos em que várias indústrias se voltam para sua extinção. Vale lembrar: ninguém precisa ser feliz o tempo inteiro.

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



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