Críticas

Published on janeiro 9th, 2017 | by Marcelo Leme

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Crítica: Dominação

dominacaoDominação (Incarnate, 2016) me ofereceu uma das experiências cinematográficas mais detestáveis dos últimos anos – e ao longo dos últimos anos, não foram poucos os filmes que me ofereceram experiência similar. Ainda não me recuperei de Deuses do Egito (Gods Of Egypt, 2015), lançado em fevereiro passado. Bem, o terror enquanto gênero – este que me fez idolatrar o cinema ainda cedo – sempre me chamou atenção. Fui lá conferir este lançamento entre os poucos que chegaram na cidade onde moro. Minha primeira sessão do ano! Espero que não tenha sido um aperitivo do que virá por aí, mas um resquício do finado 2016. E que injustiça, me pego refletindo agora: 2016 até que trouxe alguns bons filmes de horror.

Este aqui é o cúmulo da insensatez numa trama indelineável, com ritmo irregular, situações constrangedoras e sofríveis, além de ser um compilado de clichês que não funcionam nem mesmo enquanto clichês. Onde já se viu? A cópia não funciona nem como referência. Não dá pra chamar de clichê porque é mal feito! A direção é de Brad Peyton, responsável por Terremoto: A Falha de San Andreas (San Andreas, 2015) e Viagem 2 – A Ilha Misteriosa (Journey 2: The Mysterious Island, 2012). Diante tal currículo, fui otimista demais em esperar alguma coisa minimamente relevante, não é?

Mas surpresas são costumeiras no cinema. Devo confessar que nem sabia quem era Brad Peyton, o que contribuiu para o otimismo. Bem que eu deveria ter acessado o Cineplayers antes para descobrir.

Este é um filme de exorcismo – ou tenta ser – que cita O Exorcista (Exorcist, The, 1973) e traz uma abordagem completamente diferente do que vimos em filmes parecidos, um indício de originalidade que se esfumaça quando se realiza em cena. Deve ter ficado bem interessante no papel para alguém querer investir nisso. O método utilizado pelo exorcista do filme refere-se a sonhos, em entrar nos sonhos – A Origem (Inception, 2010) sugado – dos possuídos e expulsar o demônio de lá a partir de alguns estímulos reais. Em certo instante, visa se distanciar de qualquer teor religioso para logo depois se tornar um. O roteiro se sabota. Não faltam exemplos disso. Um deles diagnostica sua total displicência: após uma morte em um apartamento, a polícia é acionada e leva o corpo como se levasse um rato morto. Ela some e nada acontece. O que o roteirista pensou? Uma possível investigação poderia dar alguma substância a história. Favoreceria o tempo urgencial! E o tempo, este é mensurado com tamanha facilidade que nem em animações expressamente infantis os roteiristas ousam fazer.

E tem Aaron Eckhart. É bem verdade que ele nunca foi unanimidade, mas protagonizar um filme como esse é para enterrar qualquer carreira. Perceba a entonação de sua voz, parecendo o Batman do Christian Bale numa versão cafona. Seu sofrimento constante é a estrutura que justifica sua existência no longa e temos acesso a isso em lapsos, numa tentativa de aos poucos se revelar, considerando que estamos interessados. Os personagens em sua volta são todos moldados por um roteiro esquemático que limita até a finalidade do antagonista, com um maniqueísmo dos mais torpes e manjados. O ‘vilão’ é moldado segundo os princípios mais esquemáticos e constrangedores.

O início do filme já constatava a leviandade que seria, mas em certo ponto quase fui convencido de que se tratava de um viés autoral, quase sarcástico sobre o gênero para depois, sem demora, perceber que era uma grande catástrofe. Pegue a primeira morte do filme e compare a cena em que um homem corre incendiado. Qual foi mais infeliz? Há ainda a crise de identidade, não se portando como um natural filme de terror de estilo reconhecido, sendo por vezes um trabalho de mistério, um suspense policial ou um tímido filme de ação. Não se dá bem em nenhum. Tanta mediocridade metaforiza o que é a obra: um dos piores filmes sobre possessões demoníacas a invadir os cinemas em mais de 100 anos.

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



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