Críticas

Published on abril 19th, 2015 | by Marcelo Leme

0

Crítica: Drive

DrimodeloCineemProsaDriveve é um frescor diante a mesmice. Tem a seu favor a possibilidade de agradar distintos públicos. É eficiente ao abordar vários elementos, priorizando a cênica e o clima herdeiro do noir.  Seguimos um homem sem nome que orgulharia Eastwood. Sua habilidade não está nas armas, mas no volante, na velocidade, na fuga. Tem um código que segue com rigor. Somos apresentados a esse no ótimo prólogo, na abertura antecedendo os créditos em que, rapidamente, nos insere em seu universo hostil, dirigindo para mafiosos, seguindo restritamente normas e sem arriscar-se por alguém. Suas regras são claras e o custo pouco importa.

Enquanto adorno para a história, um estilo proveniente de filmes dos anos 80, muito sangue e violência. O que o longa apresenta é uma história de amor longe das convencionais. Ela é quase hipotética, uma menção nas entrelinhas promovida por Irene (a sempre espetacular Carey Mulligan) e o motorista sem nome (Ryan Gosling). Ela ainda tem um filho e é casada – seu marido voltou recentemente da prisão. Juntam-se os 4 numa mesa e o relacionamento entre ambos que num primeiro instante imaginaríamos como passível de intrigas converte-se em altruísmo recíproco, cujas motivações são discutíveis.

Dirigido pelo dinamarquês Nicolas Winding Refn, Drive é um exercício de estilo, articulado, cheio de referências e com visíveis aspirações oitentistas, seja nas cinematografia quanto nas canções, um atributo que a princípio nos deixa curioso para logo se estabelecer e embelezar sonoramente uma história em que o visual pesa. A saliência das cenas bem econômicas contribuem com as intenções. Nada aqui é descartável. A fotografia límpida prioriza luzes, mostrando a exuberante Los Angeles noturna. É um deleite visual. Como exemplo de um ato visualmente sublime que implica quase em uma licença poética cênica é a luz ofuscada na cena do elevador, intencional, com objetivo estético expondo um beijo.

Famoso pela trilogia Pusher, Refn coordena muito bem cenas de ação. Ele parece buscar se adequar ao real a todo instante, priorizando a observação de sua estrela, analisando as possibilidades com o carro parado para depois dar devida injeção de adrenalina. Característica de um prévio estudo comportamental do espectador.

Drive, enquanto frescor para um gênero saturado, vem provar a criatividade em tempos de excessivos blockbusters estúpidos, que priorizam muito mais os efeitos do que a história. Isso apenas revela a necessidade de grandes produções em se auto afirmarem enquanto grandes filmes de ação para mascarar o tradicional vazio que as permeiam. É possível ir além de uma perseguição com explosões fetichistas, priorizando a complexidade dos personagens. Desta forma, a magnitude do protagonista, vivido seriamente e laconicamente por Ryn Gosling, é constatada em detalhes. O ator vem em grande ascensão e cria aqui um icônico personagem.

Ao seu lado está a doce e carismática Carey Mulligan, atriz que declaro ser fã, que dá fragilidade e insegurança necessária a uma mãe de família tendo que se virar num fast-food. Os bons diálogos propostos pelo roteiro viabilizam a compreensão dos fundamentos dessa trama ágil e deliciosamente melancólica, robustecendo as personalidades de seus bons personagens. Nesse meio Ron Perlman, Albert Brooks, Christina Hendricks e Bryan Cranston são talentos bem explorados, estando esse último a assumir uma função paternal zelosa. Ninguém está jogado ao léu, não há desperdícios ou excessos de recursos durante a narrativa. O exagero se dá na violência, o que é proposital, como interlocução à obras análogas. Uma cena em especial fará o espectador recordar Irreversível de Gaspar Noé.

Drive conta a história de um homem sozinho, de fragilidades particularmente humanas e de relações com o mundo. Não é de muitos diálogos, é quase um exercício de observação, de contemplação. Seu seguimento é óbvio e bem caracterizado, uma espécie de homenagem intrínseca ao passado originado de filmes B. Ganhou fama cult e consolidou Ryan Gosling como um dos atores mais interessantes e versáteis em atividade, tornando-se neste filme um mito das ruas escuras com sua jaqueta ensanguentada levando nas costas uma imagem de um escorpião amarelo tão simbólico quantos as luzes cintilantes que narram independentemente suas intensas e metafóricas cenas.

Comments

comments

Tags: , , , , , , , , ,


About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Back to Top ↑
  • ASSISTA NOSSOS FILMES DE GRAÇA

  • Parceiros

    Parceiro - Adorocinema
  • Parceiro - Centerplex
  • Inscreva-se no Youtube!