Críticas

Published on maio 15th, 2014 | by Marcelo Leme

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Crítica: Ela

QuaEsboçoAltereaElando um homem subitamente apaixona-se pela voz de um sistema operacional com inteligência artificial interativa, as pessoas em volta encaram como um disparate, ou algo assim. Ou não. Não aqui. Ela se passa num futuro onde a tecnologia envolveu a humanidade. As pessoas dialogam com máquinas, dedicam a vida a  tecnologia. Theodore faz parte desse universo, é um escritor de relativo sucesso que vive uma vida solitária, igualmente a todos em seu meio. Sofreu recentemente pelo fim do casamento. Está em crise, desmotivado e desacreditado. As lembranças do tempo que estivera casado estouram em sua cabeça como lapsos de um passado indeletável. Theodore é humano, sofre, não possui a função off dos aparelhos que constantemente manuseia.

Tal premissa tão atrativa vem de um dos cineastas mais criativos do cinema contemporâneo: Spike Jonze. O diretor deslumbra com um filme singelo sobre a solidão e a tecnologia que aproxima/separa as pessoas. A veia melancólica tradicional de seu cinema é ascendente, vem tomando o espaço do humor que sempre abraçou. Ele não o abandonou, mas lhe deu menos tempo.

A melancolia toma conta numa elaboração futurista e delicada, centrando em mazelas corriqueiras cotidianas, compreendidas pelas relações as quais estamos dispostos, seja com coisas ou pessoas. Um programa finalmente pode interagir, lhe responder com as palavras que deseja ouvir. O interesse explode nesta interação de apego com o ser inexistente que tão bem nos compreende. E como não se apaixonar por uma voz sutil que nos conforta? Por uma figura idealizável que nos acalenta? Pela fala rouca de Scarlett Johansson que empresta sua voz a Samantha, um sistema que raciocina e encanta por ser um espelho de ambições.

Fascinado pela completude encontrada nas palavras daquela voz oculta, Theodore encontra motivos para sorrir. Jonze é inteligente em suas escolhas, busca levar ao espectador toda a experiência de falar no escuro, como numa oração buscando respostas. Mas aqui não se fala sozinho, as respostas aparecem numa doce e suave entonação. Quando o diretor escurece a tela e ouvimos o diálogo entre a dupla, como um casal começando a se conhecer, definitivamente entramos em sua ótica e o deciframos,  entendemos. O absurdo de outrora se afugenta. O romance torna-se inteligível. Joaquin Phoenix novamente impressiona. Com uma atuação bastante branda e consciente, ele cativa o espectador com sua fala mansa. Nos solidarizamos ao seu personagem meticuloso e humano, com defeitos característicos que não dão a ele rejeição, mas uma empatia diferenciada. O compreendemos sem julgá-lo.

E é inevitável não notar Johansson de outro lado, reconhecê-la, perceber sua atuação tão marcante sem aparecer em cena. É tranquilamente um de seus mais celebres momentos da carreira. Ainda conta-se com as atuações da sempre empolgante Amy Adams e da talentosa Rooney Mara. O elenco dá todo um suporte para um filme que nasceu com questionamentos. Haveria quem aprovasse? São tempos os quais relacionamentos acontecem graças à tecnologia. Expor a beleza de uma narrativa melancólica através da fotografia é um ganho que Ela pode ser orgulhar. Ainda é combinado com uma trilha sonora tão aprazível que certamente alguns sairão do cinema e procurarão em casa para ouvi-la e acessar de novo os dilemas propostos na obra.

Perceber um filme absolutamente maduro se construir através de uma trama difícil é notar o talento de um grande cineasta em franco crescimento numa indústria a qual a criatividade anda sofrível. O romance em Ela emerge da aceitação e do ideal de completude, ainda que soe forçado ou improvável. Vem da sensibilidade e de sua urgência em explicitar a necessidade do outro, seja lá em qual nível. O cinema já foi longe ao propor em diversos momentos o futuro com distintas relações entre homem e máquina. Esse é um profundo longa que esboça variáveis modos de relação. O prazer do presente faz toda a diferença.

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



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