Críticas

Published on maio 6th, 2015 | by Marcelo Leme

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Crítica: Entre Abelhas

entreabelhasÉ impressionante o quanto Fábio Porchat está contido nesse Entre Abelhas. Aqui ele demonstra versatilidade e cala alguns de seus críticos. É provável que muitos irão ao cinema esperando ver um desempenho semelhante ao do já reconhecido Porchat de Porta dos Fundos ou de algumas de suas incursões no cinema, sempre com entonações e tempos cômicos semelhantes. Os espectadores que esperam ver os gritos do ator se frustarão e se impressionarão. Pode-se afirmar que esse é um filme tragicômico, um drama com toques de humor – especialmente em sua primeira metade – que traz algo absolutamente inusitado: Bruno (Porchat) percebe que as pessoas em sua volta estão desaparecendo, apavora-se com o fato e passa o filme inteiro atrás das razões pelas quais isto está lhe acontecendo.

Bruno é um personagem dramático, seu estilo flerta com as concepções de Woody Allen. Ele é um homem desorientado que caminha pelas ruas de Copacabana. Fábio Porchat assina o roteiro, a ideia existe há 10 anos e veio ganhando forma através da década. A dramaticidade se faz presente tanto no texto quanto nos personagens ao redor e explodem nas metáforas, entre elas as diretamente ligadas ao título. Há uma explicação coerente ao longo do filme. Esses caras estão falando de depressão, tratando o tema a partir de uma abordagem diferenciada, longe de ser genial ou inovadora, mas absolutamente conveniente aos tempos atuais de pessoas invisíveis.

Da turma conhecida do Porta dos Fundos estão o competente Luis Lobianco num papel que não preza seu talento, ainda que esteja recheado de uma crítica social; Leticia Lima quase numa ponta e Marcos Veras, vivendo o melhor amigo de Bruno, um personagem odiável e de pouquíssima relevância para a narrativa. Ele poderia ser cortado sem qualquer prejuízo. Integram o elenco a ótima Irene Ravache e a jovem Giovanna Lancellotti que aqui pouco tem a mostrar. A força do filme não são as interpretações. A direção de Ian SBF dá liberdade aos atores e freia o protagonista. A liberdade aos atores dá margem para que alguns sejam mais incisivos e destaquem-se sobre outros.

O zangão volta para a abelha rainha e o resultado mescla cenas cômicas e tristes, expondo um retrato geracional. As metáforas são o grande trunfo do filme. O roteiro esquemático tende, por vezes, ao escracho, todavia essa é uma questão resolvida na segunda metade quando o filme decide sua rota e torna-se centrado em sua narração. Aplausos para a ousadia. Isso é gigante, ainda mais diante a expectativa tão bem frustrada de que este poderia ser mais uma daquelas comédias nacionais de riso fácil. Não, essa é a retratação do vazio! Os planos que mostram a cidade esvaziada são devastadores, as ausências são ressentidas e cria-se um turbilhão de emoções que se chocam, seja através da solidão experienciada como de separações. O desamparo é visível em várias camadas. Entre cenas desnecessárias e outras de teor sensorial, Entre Abelhas traz riso e também traz ternura.

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



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