Críticas

Published on janeiro 8th, 2014 | by Marcelo Leme

0

Crítica: Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios

eureceberiaA beleza que inspira, que se choca com nossa percepção do belo nos fazendo projetar o que contemplamos. A musa que encanta cuja lascívia emanada extenua o desejo de quem a vê. Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios é um conto romântico e poético sobre a desordem e as tragédias que envolvem o consumo da beleza levando ao seu desgaste e possível fim. Passado numa população ribeirinha no Pará, o filme explana a sociedade local sobrepondo sua paisagem e as destruições ocasionadas pelo desmatamento que vem assolando a região de maneira descontrolada. Tal fato relaciona-se diretamente a conduta de seus personagens com o simbolismo de suas idealizações e a extenuação do que outrora lhes fora formoso.

Um trio forma a narrativa. Ernani (Zé Carlos Machado) vislumbra uma cura da terra e das pessoas, expondo discursos ideológicos apoiados por sua crença: ele representa a palavra; Cauby (Gustavo Machado) é um fotógrafo que se permite encantar com belezas e procura a todo instante modelar uma forma ideal que ainda não encontrou em seus modelos: ele representa o olhar; Lavínia (Camila Pitanga) é resgatada pelas palavras e pelo olhar, cada qual sugerindo um destino. Ela é a constituição do desejo apropriado.

O filme tem início com uma mulher nua em pose sexual olhando para a câmera. Uma índia. Nesse momento somos os observadores aturdidos pela composição visual da imagem que conta com sedução. Ela é a representação da musa. Um fade, e adentramos definitivamente na história. O diretor Beto Brant que já concebeu bons projetos como Cão sem Dono e Crime Delicado investe numa narrativa retalhada, contando distintos momentos de seus protagonistas como um quebra cabeça ao passo que elabora alusões ao contexto através de elipses. O olhar, algo importantíssimo no filme, salta de lugar a outro, de história a outra, de tempos a outros. Como os recortes de seu fotógrafo que expõe nas paredes retratos de sua estrela, a história mescla vários eventos explorando Lavínia, seu furor e sexualidade.

Tudo acontece por um sentido nesta trama escrita por Marçal Aquino, – parceiro e amigo do diretor, ele também é dono do romance homônimo que inspirou este filme – com a maioria dos eventos ligados a condição de posse. Os corpos se despem e o desejo carnal aflora. Camila Pitanga se entrega, está nua e isso importa para as pretensões da narrativa que não faz da nudez gratuita. Como foco de idealização, o corpo deve aparecer. E aparece. As cenas esquentam, as cores fortes estilizadas contribuem e a fotografia exerce papel fundamental para elaborar a retratação cálida. A atriz dá fulgor à tempestuosa Lavínia, sempre acometida por sentimentos contraditórios, carregando no olhar uma melancolia confusa.

Há ainda um importante desencadeador na história que não está presente entre o trio. Um quarto personagem, o jornalista Viktor (Gero Camilo). Ele é amigo próximo de Cauby e, em costumeiros encontros, narra passagens literárias que dizem respeito às ocorrências da trama. Um estímulo externo para o comprometimento de relações. E o resultado disso é penoso, abrigando passado e presente num ciclo de acontecimentos e de omissões fragmentadas em passagens temporais. Servindo também como um potencial filme-denúncia devido aos planos que registram deformidades da floresta amazônica, o longa ainda retrata defesas de humanos frente às frustrações, acarretando a saúde mental e social. Como seu título indica, esta é uma obra de apegos e serenidade reconfortante. E é admirável notar, ao final, um olhar lançado ao público, deixando uma inquietante interrogação.

Comments

comments


About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Back to Top ↑
  • ASSISTA NOSSOS FILMES DE GRAÇA

  • Parceiros

    Parceiro - Adorocinema
  • Parceiro - Centerplex
  • Inscreva-se no Youtube!