Críticas

Published on janeiro 6th, 2015 | by Marcelo Leme

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Crítica: Êxodo: Deuses e Reis

modeloAltereaexodoSe eu não destacar a experiência visual que o filme oferece em sua arrastada duração, então não destacarei muita coisa. A beleza de todos os quadros deste Êxodo: Deuses e Reis faz valer o preço do ingresso. De resto tudo é convencional e arbitrário. Assistimos a composição de um mito conhecido levado às telonas com toda pompa hollywoodiana. Nada que já não tenhamos visto, como exemplo a animação O Príncipe do Egito (Prince of Egypt, The, 1998) – comparação injusta? – que se resolveu melhor em menos tempo. A direção disposta a ostensão de Ridley Scott confirma a experiência do cineasta em carregar filmes potencialmente densos fazendo uso de vários aspectos que aproximem o espectador de seus personagens, o que naturalmente proporciona identificação dando-lhes importância. Aí o filme funciona apesar de qualquer coisa.

Após ressaltar sem detalhes essa experiência visual, busco ressaltar outras coisas que eventualmente podem, ou poderiam, ter levado a obra a um patamar que não fosse ínfimo. O elenco é bacana. Há pontas de luxo. Há algumas cenas empolgantes, como a tão esperada envolvendo o mar vermelho. A realização da mesma é o ápice emotivo de uma história emotiva carente de emoção. Um paradoxo sentido. Não creio que haja quem derrame uma lágrima sequer pelo filme apesar de tantas tragédias sequenciais. E olha que emocionar é algo que Ridley Scott faz bem. Thelma & Louise (Thelma & Louise, 1991) e Gladiador (Gladiator, 2000) não me deixam mentir. Também fiquei insatisfeito com as motivações de seus personagens: tanto tempo de filme fora insuficiente para determinar algumas razões de alguns feitos, especialmente os vilanescos.

Considerado definitivo com relação a esta temática bíblica, Os Dez Mandamentos (The Ten Commandments, 1956) segue imponente. Comparações por vezes são aborrecidas, mas Charlton Heston, ator que nunca me fascinou, é um Moisés muito mais interessante que o de Christian Bale. A convenção desse Êxodo é salientada nos detalhes do roteiro. Buscando garantir nossa empatia, procura retratar animais nobres como os cavalos em guerra e abusa de cenas envolvendo crianças em perigo. Também traz relações amorosas desfeitas; promessas lançadas; profecias romantizadas. Há outras constatações, a principal diz respeito a apelos heroicos recorrentes em arrasa quarteirões, a tradicional representação do fascínio de um herói. No caso, um Moisés combatente que empunha uma espada. Também assistimos uma discussão política a cerca do poder de um império. A história se modela aí, deixando a relação entre o descrente Moisés e Deus num segundo plano, até certo ponto.

O antagonismo não está propriamente no déspota Ramsés (Joel Edgerton, desperdiçado como imposição maniqueísta), o irmão de Moisés, herdeiro do trono egípcio, mas em Deus. A coisa toda envolvendo a escravidão do povo hebreu dá substância ao desacordo entre os personagens centrais, no entanto o aprendizado dos erros é demasiado custoso quando poderia ser razoável, pensando de uma maneira minimamente lógica. O genocídio de uma nação vem acontecer após pragas e não há qualquer desculpa para as desgraças que não seja o deleite de um ídolo diante a miséria de sua criação. Por outro lado é explicável já que Deus ganha a face de uma criança com um comportamento impertinente e sádico. Sem preocupar-se com esse fundamento, o filme transcorre desenvolto em suas longas e bem equilibradas cenas de ação. É um épico condizente a expectativa gerada, mas tão irrelevante para o cinema que nem a presença de atores do gabarito de Ben Kingsley, John Turturro e Sigourney Weaver fazem qualquer diferença. Num cenário luxuoso, uma boa história se enterra.

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



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