Críticas

Published on setembro 15th, 2015 | by Marcelo Leme

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Crítica: Exorcistas do Vaticano

modeloCineemProsaexorcistasAo que parece, segundo o cinema, os demônios amam garotas virginais. A vítima da vez é a bela Olivia Taylor Dudley que vive a angelical Ângela – nome proposital, óbvio – que é considerada pelo namorado uma garota perfeita por nunca ter falado mal de ninguém. Quanta desvalorização. Ângela tem um pai protetor e afetuoso, ele despreza seu namorado. Aí se restringe algumas poucas piadas como alívio. Repentinamente a garota apresenta comportamentos estranhos o que a leva a sequentes internações e suposições sobre algum problema psicológico. Ela chama atenção de um padre, logo seu caso vai parar no Vaticano. Há um demônio no corpo de Ângela, mais um daqueles que gostam de se manifestar completamente quando combatido. Deve ser algum acordo infernal. Ah, quanto a origem deste, assista ao filme e perceba mais um detalhe: a mãe de Ângela era uma prostituta que quase foi salva por um homem. A misoginia é manifesta.

E a misoginia pouco importa para o filme, ou melhor, para seus realizadores. O pecado envolve a mulher. E se é um filme de exorcismo que abrange religião, ainda mais trazendo o Vaticano para perto, é natural que referências bíblicas explodam em cena. E que a mulher carregue o mal. A história estabelece essa configuração, com vários homens tentando tirar o mal de Ângela: padres, cardeais, pai e namorado. Nenhum tem lá muita função. Há personagens extras que condensam a história, como a psiquiatra. Algumas boas cenas atravessam a dúvida da sanidade, deixando a primeira metade da projeção praticamente a mercê da ciência para somente depois o exorcismo acontecer. Não há nada que já não tenhamos visto antes.

Mas o que realmente interessa? Além de ver o desempenho da até então desconhecida Olivia Taylor Dudley combinar pureza com sensualidade, vale entender a progressão do filme ao esboçar o mal de falsos profetas. Aí assistimos o demônio em ação e nos lembramos de alguns líderes religiosos que agem de maneira similar – ou pior. Desta forma, o final da obra é muito conveniente a várias situações do cotidiano vistas em todo o mundo. No mais veremos membros retorcidos, línguas ancestrais numa voz monstruosa, flutuações, fotografia que parte da luz às sombras e todo o ‘mesmo’ encontrado em filmes de terror com possessões demoníacas. Acrescenta-se aí o found footage: o diretor não abre mão de aproveitar o estilo para garantir algumas boas cenas de horror. Pena não aproveitarem mais o que tinham de melhor: novamente a menciono, Olivia Taylor Dudley. A garota domina todas as cenas e é capaz de, apenas com um movimento breve de sobrancelha olhando diretamente para a câmera, expressar o que a narrativa se esforça para fazer com efeitos.

O projeto, que se vende como terror, consegue ter bons momentos dentro da conceituação de seu gênero. Muito mais horroriza do que assusta. O terror provém das manifestações demoníacas, dos resultados dessas, tal como a cena do surto coletivo no hospital psiquiátrico. São momentos a parte do roteiro, esses que inflamam repentinamente em meio ao constante clima soturno, onde a expectativa se dá pela dúvida de qual momento a coisa toda irá estourar. Igualmente simplórios são os personagens, basicamente inutilizados. Esperava-se ao menos um bom padre pra fazer frente a Ângela e seu demônio. Mas aí entendemos: dirigido por Mark Neveldine, diretor cujo currículo está recheado de longas de ação. Ele sabe bem como coordenar cenas com adrenalina – o que nos mantém atentos –, mas não tem lá muito tato com atores. No elenco há caras como Djimon Hounsou e Michael Peña que tudo o que conseguem fazer é observar e falar coisas sobre demônios e corvos. Nada muito além disso.

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



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