Críticas

Published on novembro 18th, 2014 | by Marcelo Leme

Crítica: Interestelar

Christopher NolamodeloAltereainterestelarn é um diretor habilidosíssimo. Faz cinemão pipoca como poucos conseguem fazer. Investe em conteúdo, em boas interpretações, em pomposos efeitos e mistério. No entanto sabe-se que, às vezes, tanta pompa faz mal. Faz mal a narrativa, faz mal a direção e ao roteiro, faz mal aos atores que ficam em segundo plano, faz mal ao espectador que pouco absorve a obra diante um turbilhão de acontecimentos carentes de dramaturgia sensorial. Não que seja preciso se ater a esse tipo de coisa, mas é relevante estabelecer vínculo com quem apenas observa, senão vira algo mecânico, entretenimento trivial, tal como um monte de robôs se espancando sem nenhuma razão pertinente aparente. A vaidade intelectual do cineasta lhe comprometeu.

O valor sensorial de uma obra é fundamental para o envolvimento com o espectador. O cinema em sua dimensão dá margens para que isso ocorra em diferentes aspectos. O cinema não é quadrado. Muitos o fazem assim, como fórmulas matemáticas, como se arte dependesse de uma prescrição. O que melhor funciona nesse Interestelar são seus ótimos atores. A carga dramática vista nesse filme nunca fora vista em outra obra do Nolan. Ao menos não dessa forma. Matthew McConaughey está em sua melhor fase e defende muitíssimo bem o protagonismo, seja nas cenas de ação quanto nas de profunda ternura, ainda mais envolvido num devastado núcleo familiar. Jessica Chastain é outra que se engrandece pelo talento, ainda que aqui esteja burocrática. São os bons atores que nos aproximam do filme. O roteiro preocupa-se com essa ligação, mas não nos alcança.

De prontidão o filme entrega tudo mastigado. Todas as cenas são explicadas didaticamente: ignorando a obviedade de sua intenção, não me parece lógico um roteiro querer ser explicativo o tempo inteiro como se não acreditasse na inteligência do espectador. Obviamente é um filme que precisa ser visto mais de uma vez para ser muito melhor compreendido, todavia é inteligível apesar de qualquer coisa. Entendemos a necessidade humana por um local habitável já que o planeta Terra está arruinado; entendemos o medo nos olhos daqueles que enfrentam a sombra da esperança; entendemos a angústia envolta dos poucos que ainda buscam um último recurso de sobrevivência. Tudo isso é suficiente para o espectador entender o drama de sua boa história. Os pontos de virada do roteiro apenas mascaram o melhor fundamento do filme: o ser humano sendo humano.

Nolan exprime o tempo de diferentes formas e obtém sucesso. Desprendeu-se da saúde mental de Amnésia (Memento, 2000) e da percepção onírica de A Origem (Inception, 2010) para se aventurar no espaço e tratar do tempo. A estrutura de seu filme dita a sensibilidade do espectador, assim ele deturpa a cronologia da história contando-a de diferentes maneiras a cada instante, o que inevitavelmente bagunça a percepção projetada. Tal recurso permite que o espectador adentre de vez em seu universo e o filme ganhe valor. O diretor é ótimo quando visa esse objetivo e satisfaz o público que se delicia com as nuances particulares tão bem caracterizadas do cineasta. Ainda existem as menções a clássicos, como uma piada com uma tal luz vermelha, referenciando HAL 9000. A trilha também empolga, em alguns atos é notória a semelhança dos acordes com Assim Falou Zaratustra.

O fato terrível diz respeito a soma de fatores aparentemente desnecessários de um filme recheado de teorias. Tem gordura demais. Seus excessos narrativos quase alcançam 3 horas de duração. Quase esgota o público. É muita teoria tratada – e isso não é um problema, a não ser que se tire um cochilo momentâneo. Segue uma profunda lógica científica bem vinda, desprendendo de qualquer moral conservadora. Em um ponto do filme, por exemplo, o espectador praticamente antecipa a fala de um personagem, um “graças a Deus”. Surpresa, essa falácia não acontece, e um silêncio se faz presente. Bom para o filme. Isso não faz da obra descrente. Apenas permite ao público acreditar no que quiser. Mas aí chega o final de toda a teoria, e tudo está mecanicamente pronto. Parece mais um livro enxuto de conclusões que encantará muitos e seguirá causando questionamentos semelhantes ao que o próprio Nolan fez com seu A Origem ao final da sessão. É Nolan. Há quem ame e há quem odeie.

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



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