Críticas

Published on junho 14th, 2016 | by Marcelo Leme

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Crítica: Invocação do Mal 2

Invocação doInvocação do Mal Placa Nota Mal 2 conta com o capricho de um exímio realizador. O filme irá te assustar? Vai. O filme irá lhe provocar arrepios? Certamente. Isso é tudo que um filme de terror tem a oferecer? Não, com certeza não! E James Wan, seu diretor, sabe muito bem disso.

Sequência do muito bem sucedido longa de 2013 – escrevi sobre ele AQUI –, o maior mérito dessa continuação foi manter seu diretor e trabalhar o oculto em tempos carentes de tanta tecnologia. O horror é transportado ao passado para tirar dele o que este ofereceu de melhor ao gênero: o uso das sombras, a casa velha barulhenta, o protagonismo infantil, o mito a cerca de possessões, o exorcismo enquanto possível solução e as manifestações espíritas. São lendas e costumes do imaginário popular que ainda mexem com a cabeça. E para os céticos? Como um filme desses funcionaria com eles? Wan propõe: com psicologia e através de sua direção inteligente que compõe cenas apreensivas, utilizando de sua narrativa para elaborar um universo o qual nos inseriu por mais de 2 horas. Tudo ali existe naquela tela e naquele momento. Assim somos convencidos a acreditar e a descrença é rompida.

Com uma câmera inquieta – perceba que ela dança pelos cenários, às vezes em planos-sequências que investem sobre os espaços físicos como a ótica de fantasmas – o diretor constrói a ambientação com extrema competência. Não é um filme que se desenrola naturalmente, mas algo previamente pensado e mensurado, com cada plano desenhado e decidido, sempre com uma única intenção: trabalhar a expectativa de seu público. Assim não cai na armadilha que a maioria dos filmes de horror contemporâneos geralmente despencam, no habitual e simplório estímulo-resposta. A lógica aqui quase se inverte, estando seu realizador nos abarrotando de estímulos visuais e sonoros, todavia, raramente os corresponde; e quando o faz, não se apropria do tempo que aguardamos. Abre-se margem para a expectativa ser duradoura, pois sabemos que algo acontecerá, só não sabemos quando. Daí provém os sobressaltos que estouram entre gritos e gargalhadas. O horror também faz rir.

Então James Wan é tão bom assim? Sim. Um dos maiores nomes dos filmes de terror em atividade. Conhece os recursos que tem em mãos e, muito mais importante, conhece o cinema. Tem ciência da história do horror no cinema, do que se fez, do que fora construído até aqui. Seu novo filme traz uma família atormentada na Inglaterra. O casal Lorraine e Ed Warren segue para lá a fim de desvendar se o que a família vive é verdadeiro. Ed. Mostra seus dotes de pintor – uma pintura esquecida ao fundo da cena remete ao cartaz do longa passado. E seu atual quadro explana detalhes da nova vivência da dupla. Amityville novamente é lembrado, mas agora a trama baseia-se no caso Enfield, acontecido na década de 70. A mensagem de que é baseado numa história real só contribui com a experiência dos espectadores.

A maioria das pessoas convive com a dúvida do que existe após a morte. Um paraíso? Nada? Religiões se apropriam disso, mas nenhuma se dá tão bem no cinema de terror quanto as que dialogam com o espiritismo. Conseguimos listar filmes em que manifestações espíritas renderam grandes trabalhos, favorecendo a atmosfera desejável. Como esquecer, por exemplo, de Inverno de Sangue em Veneza (Don’t Look Now, 1973)? Aqui esse recurso de apropriação cultural religiosa é usada de uma maneira muito curiosa pelo roteiro, pois há pelo menos três polos diferentes em discussão: os demônios; os espíritos; e a saúde mental. Ambos coexistem no longa, servindo tanto para ambientação como para construção de personagens. Não entrarei em detalhes a fim de evitar spoilers a quem ainda não o viu.

E para criar filmes assim, o roteiro, às vezes, precisa sacrificar seus personagens, julgando-os muitas vezes como figuras não muito inteligentes. Nas ações desses personagens, para nós o raciocínio é óbvio em muitas vezes: fuga. Mas se fugirem, o filme acaba. Então somos obrigados a recorrer a nossa crença àquele universo, ao que estamos vendo. Cabe ao diretor conseguir manter nossa atenção, sem nos jogar para fora do que estamos assistindo. Aí está um dos maiores desafios dos cineastas: manter nossa crença à ficção durante toda a projeção. A maioria falha aí. E qual o recurso de James Wan para isso? Um que particularmente não gosto, o alivio cômico. Devo admitir que funcionou, mas a história acaba ferida em seu clima.

De toda maneira Invocação do Mal 2 rende uma ótima sessão. Com o retorno da dupla Vera Farmiga e Patrick Wilson, e da preservação ao contexto do filme original, a sequência equivaleu-se, sendo um dos melhores filmes de gênero do ano. É um banquete aos fãs de terror, especialmente para aqueles que gostam de bons sustos.

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



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