Críticas

Published on abril 3rd, 2014 | by Marcelo Leme

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Crítica: Jovem e Bela

placajovemebelaFrançois Ozon vem retratar a juventude num filme de descobertas sexuais, de experiências, do reconhecimento do prazer. A forma com a qual narra difere do que geralmente vemos em obras análogas por imprimir um realismo e naturalismo nas relações dispostas, com a protagonista se prostituindo, saindo com homens mais velhos. Ela faz por prazer, pela oportunidade de enfrentar o desconhecido, como num jogo – assim ela explica em determinado momento. Implica-se nessa dinâmica questões sociais, psicológicas e filosóficas relativas ao seu desejo e recompensa, já que em uma transa ganha 300 euros e guarda o dinheiro numa carteira para ser usado no futuro carente de objetivo. O que ela faz é errado? Ozon nos mostra as circunstâncias sem responder, encarregando o público de testemunhar e julgar como este achar conveniente.

A trama se inicia no calor do verão numa casa de veraneio quando a jovem e bela Isabelle (Marine Vacth) toma sol fazendo topless. Nada de errado. Seu irmão a contempla – e nós juntamente através de um binóculo. Ele é um adolescente percebendo o crescimento da irmã, interessado pela beleza da figura feminina que vem lhe despertando interesse na escola. Há quem possa contemplar a cena como uma incitação incestuosa. Bobagem, essa não passa de um vislumbre curioso com relação a corpos em formação. Julgar a sexualidade alheia desencadeia uma entonação repressora a qual o filme se mantém distate. Nesse verão estilizado no litoral, a garota conhece um rapaz e com ele perde a virgindade. Uma contingência passageira. A relação desencadeia renovados desejos e novos ciclos inauguram distintas fases e interesses.

O diretor salienta os olhares e o distanciamento. Quando as férias terminam, vemos Isabelle indo embora observando seu primeiro amante ficando para trás. Tal plano constata toda uma profundidade de núcleos de relacionamentos desfeitos por conjunturas. Nada será a mesma coisa. Elas podem melhorar! E chegam novas estações, o filme é acompanhado por elas como episódios da vida da protagonista que de perto acompanhamos. Ozon é ótimo em evidenciar sua estrela sempre frente a câmera, explanando sua beleza em vários atos, seja quando está de biquíni na praia – numa tomada semelhante a realizada em Swimming Pool – À Beira da Piscina (Swimming Pool, 2003) com Ludivine Sagnier sob o sol –, nas que evidenciam explorações sexuais – masturbações – ou com os clientes, esses que geralmente são muito mais velhos. Essa proposta de explanar a juventude e sua beleza passageira culminará numa cena final excepcional, quando Marine Vacth divide a cama com Charlotte Rampling.

Passando o tempo, alcançamos todas as estações, percebemos as várias experiências de Isabelle, e notamos suas frustrações. Algo sério acontece e sua vida privada chega aos ouvidos da mãe e da polícia. Tudo inevitavelmente muda, exceto o desejo. Canções acompanham a narrativa, as letras trazem um pouco da percepção da protagonista que poderia ecoá-las traduzindo seu cotidiano. São composições de seus sentimentos. A intenção por trás do que conferimos em cena a partir das ações de Isabelle é retratar a sociedade julgando o que está perto, ao passo que aceita quando distante: a filha se prostituir não é legal, mas não há problema em existir prostituição. Tantas outras coisas sem encaixariam perfeitamente nessa ótica.

A série de acontecimentos que perpassam as 4 estações ficam em suspensão na trama graças ao roteiro linear, tudo é episódico e acentuado por algo simbólico, dialogando diretamente com a estação vivenciada. A primavera finda como renascimento, um novo brotamento diante a vivência do passado recente. Coisas demais aconteceram em pouco tempo e isso se arrastará pelo resto da vida, não só de Isabelle como também de sua mãe, irmão e padrasto. Recorrências no cotidiano, experiências precisas e a inclinação para o sexo numa abordagem semelhante ao clássico A Bela da Tarde (Belle de Jour, 1967). O sexo, aqui, também ocorre no período diurno. E esse sexo não vem como necessidade para uma protagonista que precisa dele para a vida, mas por gostar, ou para ocupar o tempo com algo que lhe dê estímulo, uma pulsão de vida que lhe desperte interesse e funcione como compensação da apatia contemporânea.

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



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