Críticas

Published on março 3rd, 2017 | by Marcelo Leme

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Crítica: Logan

O bruto também ama

avloganWolverine/Logan precisava de um filme que estivesse a altura de sua efígie. Felizmente ele ganhou. O novo filme do provável mais querido mutante dos X-Men chegou aos cinemas cercado de expectativa. Trata-se de uma versão diferente do personagem. Sinto que seria um equivoco constatar que é uma versão mais humanizada, no entanto, é seguramente uma versão mais racional e introspectiva de Logan que aqui está ciente das limitações físicas que o tempo lhe concedeu. Mais do que isso, é um acerto de contas consigo mesmo – o que torna o embate final ainda mais representativo frente ao seu oponente. No trailer, Hurt do Nine Inch Nails na voz de Johnny Cash faz uma clara alusão à proposta da obra: um tipo de reconciliação pessoal similar a que Cash visou quando gravou a canção.

Dirigido por James Mangold, o filme não se cansa de estruturar Logan com referências culturais e com recursos narrativos. Mangold é fã de Cash – ele dirigiu o ótimo Johnny e June (2005) – e além de Hurt, traz a canção The man comes around nos créditos finais. A trilha sonora é singular, se arrasta como o personagem que manca, que enfrenta dificuldade em lutas que outrora eram fáceis, que assume olhos vermelhos esgotados e adicção pela bebida. O roteiro também escolhe um western melodramático como alegoria a sua atual condição. Em certo ponto, Os brutos também amam é exibido numa televisão mostrando uma cena com um de seus diálogos mais solenes. Ali, Shane, o pistoleiro que desejava abandonar a vida de violência, traduz o íntimo desejo de Logan. Isso é repetido em vários outros instantes a partir de diferentes contornos, até uma simbólica e emotiva cena final.

E como é bom ver Xavier e Logan juntos em conversas que exprimem todo o pesar envolvendo o recente passado dos X-Men, abrangendo ainda todos os filmes exibidos na telona. Juntos, a dupla compartilha alguns dos momentos mais ternos de toda a obra, o que chama a atenção por estes por vezes partirem de Wolverine, com sua agressividade ressentida e moral deteriorada, enfraquecido, mas sem perder a postura viril e temerária. Patrick Stewart, em seu melhor momento como Xavier, numa performance inglesa, extravasa com sensibilidade a ternura vigorosa do icônico personagem que agora está adoecido, envelhecido e dependente de remédios que inibem surtos destrutivos. Com a geração dos mutantes arruinada, resta uma fagulha de esperança contrastada na presença de uma adolescente que atende por Laura. Um prodígio e revelação.

Uma vez que o filme não tem preocupação em aprofundar seus reconhecidos personagens, se dá ao luxo de desenvolver personalidades juntamente a uma conjuração de fatos, colocando a trinca central dividindo um mesmo espaço por boa parte do tempo. Em um vídeo no celular, uma mulher aparece inventivamente narrando o contexto e ambientando a história. Dá-se abertura a concepção de um roadmovie e margem a conversas que ilustram relações e o que estas significam para o futuro dos mutantes. E para o futuro do país! Em volta destes sobreviventes, a esperta lógica narrativa se debruça a um western moderno, composto imageticamente pela fotografia adornada por tons amarelos. A impressão que dá é que o sol poente ainda persiste iluminando enquanto vagarosamente perde espaço para sombras, feito similar ao do recente A Qualquer Custo (2016), de David Mackenzie, e ainda com ecos narrativos de Bravura Indômita (1969), de Henry Hathaway.

A ação extasia e vem em consonância ao ritmo de seu protagonista. A violência não é econômica e justifica a censura. Entre tramas, o roteiro preocupa-se com a cadência dos atos, buscando fugir de fórmulas usuais e com isso consegue encontrar um tom autoral diferenciado que distingue Logan de outros filmes do subgênero, estando esse degraus a cima. É um filme de herói inteligente, adulto e que traz várias novidades. Piadas aparecem e geralmente são contidas, mas estouram como alívio. Parece ser inevitável não usá-las. O roteiro, que é bom ao sustentar seus personagens, não é tão bom quando desenvolve soluções para conflitos, recorrendo ao velho conceito deus ex machina por preguiça ou indisposição em procurar um desfecho melhor. Um exemplo? Em uma luta, alguém aparece com um carro como salvação imediata. Outra questão: a história se passa em 2029 e não vimos tanto esforço dos realizadores em imaginar o mundo segundo tal ano.

Sendo uma franquia que reflete preconceitos, assistimos o protagonista escondido numa região deserta ganhando a vida como motorista de uma limusine. Nela aparecem arquétipos da sociedade americana, um universo particular ocluso, similar ao visto em Cosmópolis (2012), de David Cronemberg. Já do lado de fora, a opressão com imigrantes e as diferentes classes. Os mexicanos estão marginalizados na beira de rodovias. Os mutantes estão praticamente extintos. Crianças escravizadas são alvo de testes. E a saída? Onde é que fica? Além das fronteiras, no Canadá.

Logan é definitivamente um filme importante. Poderá se tornar um clássico como poucos conseguiram. Caberá ao tempo mensurar sua relevância. E Hugh Jackman, incontestável, se despede dignamente do personagem que lhe levou ao estrelato. Permanece uma sensação melancólica, a lembrança de um herói querido e respeitado, vivido com entusiasmo e orgulho. Resta, juntamente a recente saudade, as lágrimas de seus mais fieis fãs.

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



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