Críticas

Published on maio 18th, 2015 | by Marcelo Leme

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Crítica: Mad Max: Estrada da Fúria

modeloCineemProsaMadMaxPara ser direto e breve, Mad Max: Estrada da Fúria é abrasador. Qual outro filme tem cenas de ação sequenciais tão virtuosas quanto esse? E se ficasse reduzido somente a potenciais cenas de ação tal como a maioria dos blockbusters ficam, então se destacaria por simplesmente ser o melhor entre eles. Mas não, vai mais longe ao esboçar seu universo distópico, por abusar de sua criatividade e pelo viés construído a cerca do papel-função do herói. Diante ao que se fez no passado, esse novo filme honra o mito em volta da figura Mad Max, abrigando referências e caracterizações estéticas que nos leva diretamente àquele mundo e tira dele a essência em torno do cataclismo humano e de seus poucos sobreviventes a partir da queda do poder e da restituição da justiça, ainda que essa inspire diferentes interpretações de sentido.

A concepção desse Estrada da Fúria leva a uma ideia divergente a dos filmes anteriores, quando os saqueadores buscavam gasolina. Aqui a concepção básica diz respeito a uma pequena cidade auto-sustentável no meio do deserto, ela contém uma pequena plantação orgânica – o único verde visível num plano curto – e água bombeada de poços. As pessoas dessa cidadela estão visivelmente doentes, provavelmente por falta de saneamento. Ali está Mad Max que nos é apresentado fugindo. Acessamos seu passado através de flashs rápidos que fundamentam seus traumas, o que o paralisa em meio aos combates e constantes perseguições. A cena de abertura dita o compasso que se seguirá ao longo de seus 120 minutos, com pouco tempo para digerir e muito a vivenciar projetivamente em seu ritmo alucinante a bordo de veículos montados, em meio a personagens bizarros e sobre o chão de areia efervescente.

Nesse percurso, o que o espectador sente é a constante tensão margeada pelo legítimo perigo com a perseguição a um comboio desviado pela ousada Furiosa, traindo Immortan Joe, o líder autocrático local. Mad Max e outros interessantes personagens se juntam a ela nessa longa fuga. Furiosa, vivida pela geralmente brilhante Charlize Theron, é a representação da potência feminina que vira as costas para as obrigações ditadas, ela abandona a cidade atrás de uma vida numa terra que em outro momento conheceu e que lhe foi roubada. Uma terra matriarcal. Ela carrega juntamente – como numa gestação simbólica – outras mulheres que vivem unicamente para dar filhos aos líderes, mulheres saudáveis cujo aprisionamento é justificado pela gestação de herdeiros. É a representação de um grito de liberdade frente a bruta opressão que vivenciam. Furiosa ganha um grande momento quando mira um alvo usando o ombro de Mad Max como apoio. É uma cena cômica e figurada.

 E há quem considere que nesse aspecto a persona Mad Max termine negligenciado. Ele é o protagonista e ganha a convincente interpretação do talentoso Tom Hardy. O talento de Hardy pode ser conferido em dois belos filmes recentes, A Entrega (Drop, The, 2014) e Locke (Locke, 2014), que lhe tiram a faceta de apenas mais um brucutu de filmes de ação. Ele dá fragilidade a Mad Max. Também lhe dá robustez. Não é estranho, assim, que passe tanto tempo com uma máscara, como metáfora de um esconderijo psicológico que lhe atormenta. Ele pouco diz, muito observa. Ele quer tirar a máscara, também quer esquecer de suas recordações penosas. A interpretação de Hardy fica mais no recinto corporal. A história gira em torno de suas constantes fugas e seu encontro com o grupo desertor não lhe desprestigia, uma vez que seguir junto a eles foi escolha sua.

Abarcada por uma beleza plástica arrebatadora e por momentos nonsenses, Mad Max: Estrada da Fúria não se limita em sua ação corrente e intensa. O diretor George Miller, com câmera ágil e hipnótica, busca nos filmes passados considerações para fortificar este novíssimo exemplar, seja na ambientação ou nos personagens, suas máscaras, as caracterizações dos veículos e principalmente nos magnânimos embates em caminhos intermináveis. O guitarrista com sua guitarra em chamas é a coroação da liberdade narrativa demarcada nesse universo imagético extravagante e divertidíssimo. A trilha pulsante vem auxiliar as cenas contribuindo com seu excesso para capturar toda atenção do público.

E é preciso notar, espectador, que há distintas possibilidades interpretativas no roteiro escrito por anos pelo próprio George Miller. Uma delas diz respeito ao poder e oferta. Notem, por exemplo, a apresentação de Immortan Joe diante aos habitantes da cidade desértica. O que ele esconde e o que ele concede a seu povo. Ele surge reverenciado, tal como o Papa, no alto de uma torre inacessível. Em baixo todos aspiram pelo seu milagre: a água. Alguns guerreiros lutam por Immortan Joe em nome da promessa de um paraíso, são convencidos pela sedução de uma vida posterior promitente em Valhalla. Tal alusão potencializa o significado da opressão tão difundida na marginalização daqueles povos carentes propensos ao sacrifício em nome do que seu líder guarda. Não à toa, ainda nessa ótica religiosa, em certo instante uma personagem reza para um Deus sem saber nomear para qual está rezando, uma vez ciente que a humanidade possui incontáveis divindades. Enquanto reza, outros agem. E na ação as conquistas se dão.

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



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