Críticas

Published on setembro 22nd, 2015 | by Marcelo Leme

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Crítica: Maze Runner: Prova de Fogo

mazerunnernotaConfesso, eu não havia visto o primeiro filme por julgá-lo antecipadamente. Trailer, ideia, capa, nada me atraia. O fato de ter estreado somente com cópias dubladas nos cinemas locais foi determinante para minha rejeição. Eis que chega o segundo, com apenas um horário com áudio original. Para vê-lo, senti-me obrigado a assistir o primeiro. Para minha surpresa, está longe de ser o desastre que supus. E como é ótimo ser surpreendido, viu!? Agora, seguindo esse texto que preza a segunda parte dessa franquia, me privarei de comentar o primeiro filme. Maze Runner: Prova de Fogo é um filme interessante de se ver na telona: tem boa movimentação, personagens razoavelmente interessantes, um tom lúdico brutal, infindáveis conflitos e uma reviravolta daquelas que servem como isca para o espectador, enfim, desejar ver o desfecho o quanto antes.

Esse segundo filme é uma junta, daquelas desnecessárias cinematograficamente, porém totalmente relevante para os bolsos; e para os fãs da obra literária. O grupo liderado por Thomas tem um novo desafio após fugirem da clareira e do labirinto que a circundava. Agora precisam lidar com o mundo em ruínas e a gana totalitária de uma organização, CRUEL, que não mede esforços para conseguir o que desejam: no caso, um antídoto presente no sangue de alguns poucos jovens imunes a contaminação que devastou a humanidade. O embate é basicamente o mesmo de obras similares: o totalitarismo contra a resistência. A resistência, minoria, surge como esperança num mundo aniquilado. Seguiremos, então, uma luta. Ou melhor, dentro da lógica dessa projeção, seguiremos a fuga, uma correria constante.

Correr. Caso lembrem, o subtítulo do primeiro filme trazia: Correr ou Morrer. Revelação temática escancarada. É justamente isso, a correria domina os personagens e a câmera. Não à toa, os melhores momentos do filme são justamente os de fuga: a fuga pelo deserto; a fuga pelos escombros do prédio tombado; a fuga em meio aos destroços onde um pequeno grupo rebelde residia. É um filme de intensa movimentação, às vezes tão intensa que chateia. O diretor Wes Ball que havia dirigido o primeiro filme irrompe com as construções de personagens que investiu e parte para a ação, deliberando situações aleatórias – provavelmente existentes no livro – que comprometeram a realização cinematográfica. Informações demais comprometem a linguagem cinematográfica. Percebemos então que, mais do que uma adaptação, é uma revisão literária. E isso é péssimo para o cinema.

Há um romance escrito por William Golding que ganhou adaptação para os cinemas no início da década de 90, O Senhor das Moscas. O filme não foi tão debatido, mas é inegável sua força e relevância ao explorar a mente de jovens que ficaram presos em uma ilha após um acidente aéreo. Um dos temas era a disputa por liderança e o quanto os jovens determinavam regras, algo relativamente próximo ao que assistimos no primeiro Maze Runner. O que falta em Maze Runner sobra em O Senhor das Moscas: desenvolvimento de personagens. Aqui não passam de jovens unidimensionais, representando diferentes etnias: essa foi a melhor maneira de explanar uma sociedade globalizada? Colocar um negro e um asiático como coadjuvantes de luxo nas cenas? A falta de desenvolvimento dos personagens não ajuda os atores a atuarem, uma vez que visivelmente estes apenas decoram textos e empalidecem com expressão de constante desconfiança.

O arco da história é inexistente. A junta mencionada apenas visa ligação das pontas. Dessa forma, Maze Runner: Prova de Fogo reside num vazio narrativo. Abarca novos personagens, novas situações e reviravoltas, preparando o público para o fim que virá somente no próximo ano. É tanta distopia que não há tempo de dar conta de todas. E o que faz da obra relevante? Seu direcionamento e segurança, e a simpatia de seus personagens. É um daqueles filmes fáceis de se acompanhar, equilibrado e definitivamente divertido. Com momentos que levam da melancolia a adrenalina em segundos, temas são lançados, resistindo sem melhores embasamentos, como a cena de um sacrifício pessoal. Ouvimos o som de um tiro enquanto contemplamos a fotografia lindíssima enquadrando uma fila simbólica: todos seguem um mesmo caminho, um junto ao outro; em outra conclusão, percebemos que esses poucos são apenas os que restaram. Que venha o próximo.

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



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