Críticas

Published on agosto 19th, 2015 | by Marcelo Leme

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Crítica: Missão: Impossível – Nação Secreta

MI5

Quando o novo Mad Max saiu, causou um frisson no público e contagiou aqueles que temiam seu resultado. Foi um grande filme que conseguiu manter a dignidade de seu original, e mais do que isso, renovou a franquia. O novo Missão: Impossível segue uma linha distinta, mantém seu protagonista e incrementa outros vieses. E por quê citei ambos? Não se trata de comparação, mas de óticas entre os dois surpreendentes filmes lançados esse ano, ambos conseguiram ir além da ação e se reinventaram. Ciente disso, a consideração é a seguinte: ou Missão: Impossível – Nação Secreta é um filmaço ou estamos tão acostumados a assistir grandes produções horrendas que quando alguma se destaca causa agitação e comoção. Fico com a primeira hipótese!

Tom Cruise está entre amigos. Isso é algo marcante nessa narrativa construída por Christopher McQuarrie, roteirista e diretor que já havia trabalhado com o astro em No Limite do Amanhã (Edge of Tomorrow, 2014) e Jack Reacher – O Último Tiro (Jack Reacher, 2012). O que McQuarrie propõe transcende a ação, legitima a essência de um filme de espionagem e gruda o espectador na cadeira com uma trama muito bem arquitetada e resolvida. A clareza das ideias contribui com o sucesso desta obra que provavelmente é a melhor da franquia. Parece exagero, especialmente pondo em cheque o primeiro filme dirigido pelo genial Brian De Palma. Pois é, há muitos que estão considerando. Acredite, não é exagero.

Missão: Impossível – Nação Secreta adentra em terrenos mais profundos através de uma organização secreta nomeada Sindicato. É uma ameaça maior, bem estruturada e fundamentada, elaborada sobre um arco dramático que envolve clássicos filmes do gênero. Inevitavelmente lembramos de 007. Boa parte da trama se passa em Londres, o contexto é pertinente. O filme reúne grandes cenas de ação funcionais, convenientes a montagem ágil que as equilibra num ritmo harmônico. Você irá notar isso, pois dificilmente essas cenas irão lhe esgotar uma vez que contam com um elemento fundamental: a dramatização dos atos.

Perceba como são as relações no filme. Como elas ditam as regras para o desenvolvimento do roteiro. Não é mais um filme de ação maniqueísta, há discussões políticas emergentes e manobras alternativas para o direcionamento de seu clímax. Exemplo disso dá-se pelo trailer e imagens publicitárias, onde o personagem de Cruise, Ethan Hunt, está do lado de fora de um avião em decolagem. Seria esse o ápice do longa? Ou apenas um magnânimo aperitivo? Há tentativas de assassinato numa ópera, interpelações sobre a reputação dos personagens e a contraposição de seus ofícios. Soa quase um velho clássico adaptado, com tiradas cômicas e situações laboriosas ao melhor estilo Brian De Palma.

E Ethan Hunt, o grande protagonista vivido por Tom Cruise, segue inflamando testosterona, porém aqui se impulsiona por atribuições morais que colocam em dúvida seus valores. Ele é questionado pelos próprios amigos. Algo mudou! Mudou para melhor, e o melhor foi mostrar que Hunt não é um super herói, ele falha, ele é mortal, apesar de todos os desafios impossíveis que venceu. Aqui há outros desafios. Ele pondera sobre eles. Outro acerto diz respeito a escalação da pouco conhecida Rebecca Ferguson, que vive Ilsa – nome que provavelmente presta homenagem a personagem de Ingrid Bergman no monumental Casablanca. Ilsa é um contraponto sexual às pretensões de Hunt, mulher que é tão boa quanto ele – ou melhor –, e que ainda escancara as finalidades impetuosas das corporações que defendem: todos são descartáveis, afinal. A vulnerabilidade de ambos é exaltada. E é ela quem propõe o jogo no filme! Em certo instante lança uma questão crucial a Hunt. Eis um toque elegantíssimo planeado pelo roteiro. Imperdível!

E sobre as mulheres em filmes de ação

Ao longo da história do cinema muitas mulheres se destacaram dentro de filmes ação. Ou similares. Há uma lista delas. Ahhh, lhe veio Sigourney Weaver em Alien na memória? É possível, também é possível que tenha se lembrado de outras. O fato é o seguinte: a mulher sempre encontrou dificuldades para se posicionar em filmes de ação. Raras exceções davam uma outra ideia da função da provedora da vida. E qual é a função da mulher? Tomar conta da casa? Empunhar armas e liderar uma legião? E qual a função do homem? Tomar conta da casa? Empunhar armas e liderar uma legião? E qual a função de se ter função determinada? Algumas obras recentes tem apostado em personagens femininas, como certamente vocês já observaram. Filmes com grande apelo popular como Jogos Vorazes e Insurgente são genuínos exemplos recentes. Há muita gente discutindo-os a partir dessa ótica.

Há pouco tempo, após o lançamento de Mad Max – Estrada da Fúria, muitos questionaram o fundamento da personagem Furiosa, vivida por Charlize Theron. Alguns até quiserem boicotar o filme alegando que este era feminista, já que Furiosa praticamente roubou a cena com seus interesses militantes. Notei semelhanças com uma outra produção recente, Missão: Impossível – Nação Secreta, que também conta com uma mulher que quase rouba o protagonismo do astro Tom Cruise. Parece exagero, dependendo do tom de fato é, mas é inegável que o papel da sueca Rebecca Ferguson chama a atenção por sua independência e imponência, chegando a ser quem toma as rédeas da ação. Ela nunca revela-se vulnerável. Ambas as mulheres provém de passados diferentes: Furiosa é infértil e fora considerada inútil. Cresceu com mulheres e é por elas que luta. Já a Ilsa de Ferguson é uma agente competente e brilhantemente treinada. Inteligente e emancipada dos interesses dos machos considerados soberanos, responde unicamente a lideranças convenientes aos seus próprios interesses. Ela é libidinosa e sensual, mas tem muito mais a oferecer do que isso. Dessa maneira, frente a essas grandes produções, os protagonistas masculinos parecem estar perdendo a iludida supremacia. Ou eu acabei vendo coisas demais.

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



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