Críticas

Published on janeiro 27th, 2014 | by Marcelo Leme

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Crítica: O Casamento de Rachel

altereaocasamentoderachelÉ natural que, ao deparamos com longas de ordem dramática reforçada pelas personalidades de seus personagens, nos apreendamos e procuramos intimamente questionar atitudes e, em suposições por vezes equivocadas, rotular o que determinado personagem é por uma simples espreitada. Tendemos a análise quase que involuntariamente. É fácil banalizar termos, muitos se tornaram populares demais, um psicologismo coletivo sensacionalista, como por exemplo relacionar tristeza a depressão ou regalo com hiperatividade. O senso comum negligencia o conhecimento.

No filme, um drama familiar está escancarado, contando pouco a pouco as razões pelas quais Kym (personagem da sempre interessante Anne Hathaway) foi internada numa clínica de desintoxicação, tendo alta somente nove meses depois para ir até o casamento de sua irmã, Rachel. Esse retorno ao contexto familiar irá tocar feridas incicatrizáveis.

Com um título que faz lembrar comédias românticas, este drama familiar – com caráter dos populares dramas franceses contemporâneos – é um entusiasmado drama familiar intenso. Os diálogos concebidos pelo roteiro do estreante Jenny Lumet são pertinentes à cadência da história refletida nas ações de sua protagonista que, devido as posturas comportamentais mutáveis, causa um mal estar entre os familiares quando presente, principalmente ao abalar as aspirações otimistas que estes vinham cultivando sobre sua melhora. Desenrolam-se aí algumas explicações sobre o passado dessa família, bem como seus conflitos omitidos por opção nessa trincheira fingida e obstinada em afastar algumas infelizes lembranças.

Vivida idoneamente por Hathaway – o filme lhe rendeu sua primeira indicação ao Oscar –, Kym é uma personagem central susceptível de discussão. Sua inacessibilidade e obscuridade funcionam não só em suas atitudes, mas também na caracterização da atriz, pálida e inquieta, colaborando para a projeção do público. Bem também está a desconhecida Rosemarie DeWitt vivendo a noiva Rachel. A direção de Jonathan Demme, diretor de O Silêncio dos Inocentes (Silence of The Lambs, The, 1991) e Filadélfia (Philadelphia, 1993), é livre e segura com câmera em punho, permitindo quadros que dão uma visão especulativa sem julgamentos, despertando ainda mais o interesse de seu público ao desvencilhar de soluções comuns. Um diferencial de cinema de gênero distinto diante várias mesmices.

A ausência de trilha sonora é um ponto que sufoca o espectador, as cenas são auto suficientes em manter a atenção vigilante do público sedento por uma boa história. É um competente estudo de personagem e se mantém em ascendência ao longo de toda a narrativa. Longe de convencionalismos, passou despercebido por alguns, porém tornou-se referência, indo além do entretenimento cinematográfico, permitindo discussão em distintas mesas. É um drama familiar rebuscado reunindo bons atores em curtos espaços, demonstrando um viés da toxicomania e sua gravidade latente em tempos atuais. Pensaremos em suas ocorrências com a desordem dramatizando a necessidade de reparo, e, principalmente, a dificuldade em resistir ao que parece insuportável.

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



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