Críticas

Published on fevereiro 7th, 2015 | by Marcelo Leme

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Crítica: O Destino de Júpiter

placajupiterO Destino de Júpiter poderia tranquilamente ser uma opção de tortura para qualquer condenado. Insuportável, o filme é dono de algumas cenas tenebrosas, além de possuir um dos roteiros mais estúpidos da safra podre de Hollywood. Agrava-se quando descobrimos sua vinculação com uma dupla de sucesso num passado recente. E não é só isso. Ainda conta com algumas atuações constrangedoras, particularmente a de Mila Kunis, atriz cujo talento jamais fora provado. As batalhas são intermináveis, a trilha sonora planejada mais irrita do que empolga e o visual, esse sim interessante concebido em CGI, também nem merece tanta menção, uma vez que temos visto coisas superiores em produções parecidas. A sensação é de que os irmãos Wachowski estão de gozação com o público.

Andy e Lana Wachowski são os irmãos que conceberam Matrix. Desde então nunca mais repetiram o sucesso. Após o anúncio de que entregariam mais um novo longa de ficção com evocação mitológica além de prováveis concepções filosóficas, não foram poucos os que o aguardaram com certa ansiedade. Pronto, o filme se revelou um exemplar do gênero da ficção científica de filosofia barata, aprendida em frases de revistas de fofoca. Tudo é tão tolo e enfadonho que é quase difícil de acreditar. Nada funciona, tudo descamba e a obra se vale de cenas de ação longas, correntes, dignas de diretores nerds medíocres. Ah, e tem um figurino atrativo que competiria com Jogos Vorazes.

Jupiter Jones nasceu em circunstâncias desoladoras. Seu nome tem uma referência de imponência, ligada ao planeta. Já enquanto adulta (ganhando os contornos e a inexpressividade de Mila Kunis), trabalha como faxineira e queixa-se constantemente de sua vida. Repentinamente descobre que está além de qualquer coisa na Terra graças ao código genético que carrega. Ao lado dos mocinhos Caine (Channing Tatum) e Stinger (Sean Bean), a moça sai da Terra em busca de um trono que é seu por direito e descobre um plano mirabolante de Balem (Eddie Redmayne). Após o desenrolar do filme, uma lição de moral paira sobre nossa protagonista, algo parecido com alguma frase de auto-ajuda desses livros vendidos em promoções. Custa a crer que isso está acontecendo.

O roteiro não estinga o espectador da maneira que Matrix ou o recente – e decepcionante – A Viagem (Cloud Atlas, 2012) fez. Seu único mérito não está em seu curso narrativo, mas numa teoria plantada sobre colheita de vidas, algo bem trivial. A direção de atores também é falha, com Mila posando de protagonista forçadamente transformada em musa; Tatum dá pancada e luta sem camiseta – seria uma forma de aproveitar seu sucesso em Magic Mike (Magic Mike, 2012)? – e Sean Bean vive Sean Bean. Eddie Redmayne chama a atenção numa performance afetada, destacando-se mais por falta de um elenco que faça frente do que por méritos próprios. Também não deixei de notar o jovem Douglas Booth, que vive Titus, decidido em roubar todos os trejeitos de Ji-tae Yu de Oldboy (Oldboy, 2003).

Os irmãos Wachowski entregam seu pior filme. Os diálogos rápidos não permitem elaboração por parte do público, até por não ter o que se pensar. Cientes das limitações, os diretores abrem espaço para a ação e essa comanda, deixando tudo ainda mais banal. E absurdamente entediante, acreditem. Júpiter precisa ser constantemente salva por seu herói, criando uma afeição romântica. Como irrita esses momentos que são acompanhados por uma trilha sonora proeminente, algo que prevemos instantaneamente após cada cena de perigo que se repete. O roteiro insiste no perigo e no love is in the air sequencial. Não há surpresas, não há dramatização, não há direção. Há tentativas falhas de humor sustentando uma premissa deficiente que talvez tivesse sucesso se transformada numa animação. Ainda assim seria questionável. Iniciou abominável e terminou hediondo.

E tem uma frase, um spoiler de uma tentativa cômica: “Eu tenho mais em comum com um cachorro do que eu tenho com você”, diz Caine. E Júpiter responde num entretom sedutor digno de novela mexicana: “eu gosto de cães”.

Para quem ainda não sentiu vergonha alheia, sentirá aqui.

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



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