Críticas

Published on julho 8th, 2015 | by Marcelo Leme

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Crítica: O Exterminador do Futuro: Gênesis

exterminadorplacaEstão dizendo que O Exterminador do Futuro: Gênesis é um recomeço da saudosa franquia de sucesso iniciada nos anos 80. Para ser mais específico, é a primeira parte de uma nova trilogia. Eu chamaria essa versão de uma proposta de repaginação, abusando do sentido mais negativo de tal termo. Há claras razões pelas quais não se tocam em clássicos. Aposto que ninguém aceitaria ver um remake (ou sequência) de Cidadão Kane, ou de Um Corpo que Cai, ou de Casablanca. A arte não precisa ser atualizada. Ponto final. O cinema é uma arte, a arte que defendo ser a mais significativa justamente por dar conta de reunir todas as outras. É claro que esse novo filme não é uma refilmagem – felizmente –, mas um reboot desnecessário que inibe todo o arquétipo edificado de seu protagonista icônico que agora, tristemente, transformou-se num alívio cômico de seu próprio filme.

O que há de novo em O Exterminador do Futuro: Gênesis? Emilia Clarke e seus belíssimos olhos arredondados vivendo Sarah Connor? Concepções genéticas que justificam o envelhecimento do personagem de Arnold Schwarzenegger? Homenagens aos dois primeiros filmes através de cenas refeitas? A visível máquina do tempo como alegoria? Tudo isso aparece como potenciais novidades e o filme se mostra incapaz de soar inovador. Onde reside a falha? Na pretensão humana, na adequação aos novos tempos, uma vez que a nova geração, talvez, não fosse apreciar tanto a versão clássica com sua violência plástica. O Exterminador virou “Papi”, afinal.

O fato é o seguinte: às vezes é melhor não mexer no que deu certo. Embora esse não seja um remake, sofre com as mudanças. Ao longo da história do cinema temos raríssimas exceções de concepções (remakes, reboots ou sequências) que funcionaram com outra roupagem. Um exemplo? Andrei Tarkovsky lançou Solaris em 1972. Em 2002 ganhou uma refilmagem que não constrange a clássica, mas que também pouco acrescenta. Vamos dizer assim, não é exatamente uma refilmagem pois trata-se de uma adaptação literária do romance de Stanislaw Lem, todavia a versão russa rendeu um clássico considerado por alguns – não por mim – como um monumento cinematográfico e era impensável alguém filmar outro. E o que isso significa? Apenas um raríssimo exemplo da ordem da ficção científica que deu certo quando uma nova obra se fez. Não temos muitos exemplos e nem precisamos ter.

Numa visão geral, através do domínio da inteligência artificial Skynet, a conceituação temporal amplia-se e o roteiro dialoga com o roteiro dos clássicos, explorando diferentes passados e futuros, o que implica nos mesmos personagens com comportamentos diferentes. Isso, ao menos, fica bem dentro da nova ótica traçada, funcionando até o ponto em que explicações científicas em demasia castigam o público. O filme fica aborrecido. Já com relação aos personagens, há apontamentos significativos que os roteiristas trataram baseado na ideia das alterações ocorridas dentro dos diferentes passados e futuros: qual a diferença entre a Sarah de Emilia Clarke e a de Linda Hamilton, por exemplo? A pluralidade de concepções psicológicas envolvida nas ações/reações em meio aos diferentes tempos poderia causar um abismo comportamental entre as duas, mas não, ambas demonstram imponência, estando a de Emilia subjugada diante a de Hamilton que está fortemente presente no imaginário popular como uma das personagens femininas mais revolucionárias do cinema. Já John Connor de Jason Clarke ganhou certa brandura comparada a do adolescente Edward Furlong – e ainda estou desconsiderando a versão de Christian Bale.

É ótimo rever Arnold Schwarzenegger em cena vivendo um de seus mais icônicos personagens. Creio que seja o ponto mais relevante desta produção. No mais há romance, relações fraternais inteligíveis, piadas físicas, cenas de ação concebidas num CGI pouquíssimo envolvente e a nova máxima de T-800: velho, não obsoleto. Num arco geral, O Exterminador do Futuro: Gênesis faz todo o sentido quando relaciona-se aos dois primeiros, sendo dependente de versões alternativas de linhas temporais. Porém, o público quando tocar no assunto Exterminador do Futuro, se lembrará com carinho de seu original e sua brilhante sequência, de tempos em que o politicamente correto não comprometia a experiência do cinema; e que os dois primeiros filmes, ainda que sejam relativamente velhos, não estão nada obsoletos e possuem muito mais vigor que quase todos os filmes de ação que sai hoje em dia.

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



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