Críticas

Published on dezembro 19th, 2014 | by Marcelo Leme

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Crítica: O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos

A última incursãomodeloAltereaOhobbit a Terra Média segue uma cartilha convencional, o que não o torna ínfimo, obviamente, mas covarde. De corajoso somente as mudanças significativas com relação a história original, estas que não estavam no livro. Pouco importa se estavam ou não dada a diferença de linguagem entre cinema e literatura. Tudo pode mudar! Mas há custos para as mudanças. O roteiro deve sim permitir-se ser diferente e não precisa se alinhar exatamente no que tange a proposta literária, mas adaptá-la com mínima dignidade. Assim foi feito e Peter Jackson, o realizador que seguirá lembrado pela trilogia de O Senhor dos Anéis, alcançou o feito de concluir uma nova exuberante franquia. A marca dessa sem dúvidas é a diversão recreativa e a nostalgia ocasionada pelas tantas referências que são captadas pelo saudosismo. O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos foi finalizado com honras, sorrisos e delicadezas.

A história inicia exatamente de onde assistimos o corte final de A Desolação de Smaug. Observamos a Cidade do Lago ser tomada por chamas e Bard desafiando a fera. Uma introdução poderosa que prepara o espectador para as seguintes sequências. Em cenas embaralhadas conferimos onde está cada um dos vários heróis. Tantos personagens ganham relevante tempo em cena, ao menos suficiente para se desenvolverem nos mais de 120 minutos de projeção. Aí chega ao que interessa, segundo o subtítulo desta terceira parte: os cinco exércitos se põem em conflito. Uma espiral de confrontos desenha o objetivo da duradoura trama. O cerne se dá pelo hobbit Bilbo Bolseiro juntamente aos anões que a qualquer custo desejam retomar o reino de Erebor. Finalidades individuais e heroísmo coletivo são enaltecidos. O romance vago efervesce, a ação enobrece com movimentos frenéticos de câmera e cortes eficientes, e morais se escancaram, especialmente com relação ao poder, um manifesto interesse de Tolkien.

Foi desnecessário conceber 3 filmes. Quem se liga em roteiro percebe gorduras. Essas gorduras não dizem respeito a adaptação propriamente dita, mas a narrativa que se prolonga, que se arrasta em subtramas até quando encontra seu ato final, o grande momento do filme. O romance entre Kili e Tauriel, por exemplo, é absolutamente aborrecido e desnecessário. Esse e alguns outros momentos poderiam ter sido abandonados na sala de edição sem que o filme tivesse qualquer prejuízo. O exemplo citado visa uma aproximação de um público que não é do filme, um modo de agradar possíveis companhias dos fãs da obra oriunda. Não acontece aqui, mas às vezes perde-se a identidade em benefício do voraz apelo comercial. Conceitos como o de Deus ex machina também retorna. Um bom exemplo deste é Beorn e seus constrangedores brevíssimos segundos em cena.

Há outras queixas consideráveis, mas que atendem particularidades do espectador: há ação abrupta por dezenas de minutos. Há quem não tenha aprovado. Sou dos que adoraram. A estilização das empolgantes batalhas impressiona pela luxúria e praticidade técnica desenrolada dentro dos cenários cuidadosamente concebidos. Há orçamento demais, alguém precisava fazer algo com isso. Notem o derradeiro ato final e o valor de cada embate. Esses são diferentes, há razão para existir! Quem não gosta simplesmente não gosta de luta. É outra história. A coisa toda é diferente, por exemplo, de uma proposta dos filmes do – perseguido por mim – Michael Bay. Um diretor cuja vaidade plástica é masturbatória com cenas gigantes, esgotantes e frívolas que pouco ou nada acrescenta ao que chama de filme. Jackson investe em outros detalhes, viraliza o estigma de seus bem construídos personagens e assume a ação como reação natural. Aí funciona.

Para Peter Jackson não resta somente elogios. Decepcionado com a conclusão do filme, particularmente eu culparia o próprio diretor. Antes de ser filmado, Guillermo del Toro foi cogitado na direção. Adoraria tê-lo visto à frente do projeto. No entanto ficou nas mãos de Jackson, um talentoso e criativo cineasta que tentou fazer de O Hobbit uma extensão de sua obra prima. Aí residiu sua falha, na falta de coragem que propus anteriormente. O filme é covarde, prefere se manter num terreno comum e pouco ousa em seu maravilhoso universo. A sensação é de que o temor por qualquer investida poderia arruinar a bilheteria. Isso nunca aconteceria. As pessoas iriam ver O Hobbit mesmo se este fosse dirigido por Uwe Boll.

O público fiel quis revisitar a terra média e de fato fizeram isso. Tal sensação, portanto, impediu que a obra fosse relevante tal como fora O Senhor dos Anéis e se transformasse unicamente numa oportuna extensão notoriamente inferior a concebida anos atrás. Essa franquia é um prequel e seus realizadores não disfarçam isso. O fato é o seguinte: temos um bom filme, rico em efeitos e nos desenhos; satisfatório na imersão e em suas várias referências; e significativo para os fãs que puderam revisitar uma terra que para eles é um valoroso símbolo da fantasia… mas terminei pensando: realmente gostamos dos 3 filmes ou todos os personagens e conjunção de submersões garantiram inerente simpatia, uma vez que já aprendemos a admirar esse universo em outrora? Bem, o passeio por esse universo chegou ao fim. Por enquanto.

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



2 Responses to Crítica: O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos

  1. Bruno Benetti says:

    Para mim o filme teve muitos clichês, deixando-o previsivel de mais. Mas ainda sim gostei do filme!

  2. João Batista says:

    Vi dois grandes problemas na trilogia em si que fizeram desse o pior dos três na minha humilde opinião:
    1º – Justamente o fato de ser um trilogia (como já mencionado no texto), fruto de uma obsessão comercial que visou (e de fato conseguiu) arrebatar multidões às salas de cinema nos últimos três anos. Isso vez da franquia algo cansativo, enrolado e que foi o calcanhar de aquiles que observei durante a seção. Na verdade o filme se limitou em 4/5 do filme àquela incessante batalha que apesar de ser divertida para o olhos cansou em um determinado momento. Se fossem menos filmes, não só a citada gordura no roteiro seria limitada como o próprio enredo se tornaria mais rico em cada filmagem.
    2º – Peter Jackson errou em tentar transformar a obra em um épico. A impressão foi a de que ele queria reproduzir um novo Senhor dos Anéis. Mas veja bem, são obras de linguagem e objetivos distintos. Senhor dos Anéis é uma obra densa, riquíssima em detalhes (não que o Hobbit não o seja, mas é claramente de uma linquagem mais simples), em que haviam seis livros (apesar de compilados em três) para três filmes. Enquanto só há um Hobbit. Além disso, Hobbit é de certa forma “um livro de aventura”, e na adaptação à épico isso ficou claro com a ausência de um fim impactante. Foi como se todas aquelas lutas simplesmente tivessem acabado da mesma forma com que haviam começado.
    No final das contas foi um bom divertimento, apesar de talvez não engolir uma segunda seção na poltrona de casa.

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