Críticas

Published on março 28th, 2016 | by Marcelo Leme

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Crítica: O Homem de Aço

O Homem de AçoÉ possível fazer uma série de apontamentos entre a história de Clark Kent de Snyder com a de Jesus Cristo. Há um notável interesse de seu realizador sobre o tema. Se para alguns isso pode soar como alguma afronta religiosa, para o diretor parece ser um grande argumento em prol do desenvolvimento de seu herói e de seu papel na Terra, anos após deixar Krypton.

O Homem de Aço, aqui, ganhou ênfase em diferentes momentos, numa busca antropológica a fim de fundamenta-lo. Acompanhamos seu proibido nascimento, seu deslocamento até a Terra e seus 33 anos, idade a qual se assume um extraterrestre com poderes imensuráveis. O espaçamento temporal da infância até a idade adulta foi totalmente ignorado. Temos acesso a alguns dizeres que salientam algo sobre seu passado, menções banais sem aprofundamentos. A partir daí o filme explode em ação quase que ininterrupta, convulsiva e gratuita.

O início da história é contextualizada em Krypton. Uma guerra vem dividindo o planeta opondo o general Zod (Michal Shannon) e Jor-El (Russell Crowe). O primeiro termina preso enquanto o segundo consegue mandar seu filho Kal-El – que mais tarde ganharia a identidade de Clark Kent – para um planeta semelhante. A Terra. Krypton fora completamente arruinada. Zod sobrevive juntamente a uma equipe desejosa em salvar sua espécie, já que a considera superior. Eis o mote para uma série de vários acontecimentos envolvendo o pequeno kryptoniano com os terráqueos.

Como este chegou e deparou-se com seus pais adotivos, Jonathan Kent (Kevin Costner) e Martha (Diane Lane), é algo que o roteiro de David S. Goyer e Christopher Nolan (sim, o cara por traz de O Cavaleiro das Trevas!) não faz a menor questão de explicar. O que parece importar é que Clark cresceu apesar de qualquer coisa e venceu suas dificuldades para se tornar o salvador do mundo.

O esgotamento de Krypton devido a devastação desenfreada dos recursos naturais ocasionada por seus habitantes rima com as condições atuais terrestres, nos fazendo aproximar daquele universo minado, como uma espécie de prefácio do caminho que a Terra trilha. A maneira com a qual é mostrado o nascimento das crianças kryptonianas e a razão desse curioso investimento é uma aposta criativa do roteiro. Chegaríamos a tal ponto? Em que ponto isso se desvencilhou da seleção natural? Megalomaníaco, o filme aponta a vida além da Terra visando dimensionar a responsabilidade de Superman e seu papel revolucionário, posto em cheque mediante reflexões sobre existência.

Mergulhado numa busca incessante atrás de pertencimento e aceitação, Kent atravessa os Estados Unidos a procura de emprego e de respostas. Encontra um OVNI congelado, o que o leva a icônica Lois Lane (Amy Adams, em um de seus mais desinteressantes desempenhos na telona), salvando-a numa primeira oportunidade. Juntamente a descoberta do OVNI e as ameaças de Zod, o mundo descobre Superman que, em meio a tanta destruição causada por suas batalhas, tenta provar estar ao lado dos humanos.

Tudo acontece demasiadamente rápido e logo assistimos uma guerra de imensas proporções encolhida num ponto em Metrópolis, o que nos levanta a dúvida sobre a noção espacial de seu diretor. Ou, em hipóteses, as finalidades que este busca  com tanto caos? Virão sequências, claro. Algumas escolhas são risíveis – o fim do personagem de Kevin Costner, por exemplo – e há diálogos constrangedores juntamente cenas de incrível beleza plástica, mas vazias de sentido. Essas nada significam, a não ser reforçar o floreio visual de Zack Snyder. O que podemos chamar? Cinema de autor? Possivelmente.

Henry Cavill é o super-homem da vez. Ele é competente. Um bom elenco sustenta a obra. E Snyder, seu diretor, é talentoso e criativo, mas não demonstra muita habilidade quando dirige atores. Neste meio, por liberdade, se sobressai um Costner contido e Michal Shannon com seu antagonismo. Sua interpretação, aliás, é certamente o que há de melhor em todo o filme.

Os passos deste messias de uniforme colorido, ou melhor, de Kal-El ou Clark Kent, são narrados sem muita emoção. Quase não nos inteiramos sobre quem de fato é o protagonista. Se ele começa perdido, parece terminar igualmente desorientado. São traços de personalidade que nunca correspondem às tratativas do roteiro. Outra questão que me parece comprometedora diz respeito ao excesso de flashbacks que não conseguem moldar a persona Clark Kent. A sacada é exibir feitos tornando-o importante e imponente, sem profundidades. Novamente, é Zack Snyder quem erra.

E ainda sobre as referências religiosas: uma cena em especial se passa dentro de uma igreja, onde Clark pede conselhos a um padre. No contra plano está um vitral. Nele a imagem de Jesus resplandece. Tal referência é bonita e até mesmo romântica, mas demasiada expositiva, sendo mais um fetiche estético forçado de seu realizador, um evidente apreciador de imagens. No fim, Zack Snyder realiza seu pior filme, absolutamente inferior a 300 e ao ótimo Watchmen. Dispensou o slow motion e assumiu a câmera de maneira convulsiva e insegura, tal como o desenvolvimento de seu filme que fica sempre próximo de tratar de algo. E nunca trata.

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



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