Críticas

Published on abril 11th, 2015 | by Marcelo Leme

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Crítica: O Segredo das Águas

O cinmodeloAltereaOsegredodasÁguasema asiático, de um modo geral, tem uma capacidade impressionante de sensibilizar seu público, seja através das imagens – na maioria das vezes a partir de um rigoroso estudo de cena e fotografia –, ou através do próprio texto – geralmente abarrotado de artifícios simbólicos que expõem sua cultura. Esse O Segredo das Águas abarca plenamente esses artifícios em vários momentos, todos estruturados para formar um núcleo de relações baseadas no tempo e na mística cultural. Para isso está o oceano, um dos elementos mais utilizados no cinema, referenciando o tempo e as pessoas como ondas que chegam a algum lugar após ter dançado juntamente a outras na exuberância e intimidade do mar.

A diretora desse é Naomi Kawase, uma das cineastas mais aclamadas do riquíssimo cinema japonês contemporâneo. Ela adentra profundamente na juventude do casal protagonista que, naturalmente, e habilmente do ponto de vista narrativo, se relaciona com outras pessoas estabelecendo uma sinergia contemplativa sobre nascimento e morte, passado, presente, futuro e as passíveis vivências do meio contextual. Isso é realizado em ciclos, em histórias menores. É fácil observar durante a projeção o rumo que o filme escolhe e segue às vezes adentrando demais em algumas ramificações. São desenrolares em atos contemplativos e outros que intencionalmente sugerem tensão, todos fortalecidos por atributos que transmitem a essência e experiência de ‘ser’. A elaboração de cada quadro, visando tal objetivo, é enternecedor.

Um corpo boiando é encontrado no mar. Isso, de algum modo, afeta a vida da população de uma pequena cidade litorânea. Torna-se assunto entre todos que especulam. A ocorrência chega aos ouvidos da dupla adolescente imersa em conflitos pessoais: ambos os conflitos dizem respeito a possibilidade de perdas e nessa ótica eleva-se a saudade. Com ternura o conceito de saudade é esboçado enquanto presença ausente adjunta a superstições pessoais primitivas. Há possibilidades de interpretações racionais, no entanto a força da ideia estabelecida no longa persiste na cultura espiritual daquele povo.

Trata-se de uma temática custosa que ganha leveza nas mãos de uma cineasta que investe ternura. É quase impossível não se emocionar em algumas cenas, principalmente naquela a qual canções são entoadas próximas a um leito de uma enferma que assiste, quase sem vida, as canções cantadas por parentes e amigos e se sensibiliza com movimentos espasmódicos e breves. O ritmo do filme acaba quebrado, comprometendo ligeiramente a experiência de alguns espectadores. É verdade que O Segredo das Águas poderia ser mais enxuto, todavia essa decisão não corrompe a essência proposta. É fato que esta é uma das mais autênticas oportunidades de experimentação sensorial proporcionada pelo cinema recente.

Um mergulho na imensidão azul culmina no fim de alguns ciclos sinalizando um futuro aberto com os adolescentes abandonando suas ingenuidades. A beleza de tal ato é contemplativa e tocante, dando a obra magnitude sensorial. Notem, por exemplo, as rimas simbólicas e como uma leva a outra com propriedade introspectiva. São símbolos naturais, as ondas, os raios, os trovões, os animais. Observem as nuances, suas transições simbólicas, como as manifestações terrestres diretamente ligadas as ações dos personagens. É metáfora de passagens, o oceano se perpetua e nós, diante de nossa finitude, em algum momento nos despedimos dele.

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



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