Críticas

Published on janeiro 8th, 2016 | by Marcelo Leme

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Crítica: Os Oito Odiados

os oito odiadosPode soar, a princípio, uma inspiração do diretor pelos faroestes italianos, estilo que confessamente Tarantino aprecia, tanto é que geralmente, quando salienta o gênero, destaca planos que Leone imortalizou. O cinema de Tarantino é feito de alusões, ele se apropria dessas e estabelece seu estilo. Pastiche? Ou apropriação? Prefiro o segundo termo, o que inevitavelmente me faz recordar de De Palma. Coloco ambos os diretores lado a lado dentro dessa consideração.

Reconhecemos nos créditos iniciais a marca do legítimo western. Letras grandes, tomadas por um amarelo chamativo. Soma-se a isso a trilha vigorosa composta pelo genial Ennio Morricone. Como não se empolgar? Está tudo pronto para apreciamos quase 3 horas de um western. Mas não! Esta obra não é essencialmente um western. Os Oito Odiados é outra coisa, parte de uma premissa e divaga sobre outros contextos, demorando a atingir o clímax de espetáculo o qual seu realizador faz divinamente bem. Você até pode achar repetitivo, mas é Tarantino em seu melhor estilo.

Oito figuras se cruzam durante a travessia de uma diligência. A neve assola e castiga. São personagens que se unem pela circunstâncias do tempo e da piedade, além de outros interesses particulares. Em outro contexto, eles jamais dividiriam o mesmo espaço: uma espécie de saloon. Este limitado espaço une opostos da Guerra da Secessão, a confederação contra a união. O roteiro dá conta de explorar o ocorrido em longos diálogos. Estes podem esgotar um espectador desavisado.

Se há algo que Tarantino faz muitíssimo bem, além de escrever, é escalar elenco. É notável seu interesse em trabalhar com os mesmos atores, com algumas exceções. Tais exceções vem preencher necessidades intrínsecas. Eu poderia falar de vários atores, mas gostaria de ressaltar Jennifer Jason Leigh que está perturbada, maníaca e adoravelmente farsante. Ela absorve uma imagem tragicômica e vive instantes que praticamente nos faz sentir mal em esboçar qualquer riso. Junto a Kurt Russel, promove cenas de afago e brutalidade. Gosto muito da dinâmica entre ambos.

E o que mais gosto é perceber a tensão sempre presente. No segundo ato então, diante a disposição de todos os atores em cena, notar que do lado de fora de onde estão, o perigo rumina. A nevasca pálida aparece como uma fera brutal que anuncia com seus ventos cantantes que está sempre à espreita, aguardando alguém sair para ser devorado. Este espaço que conserva oponentes guarda caracterizações particulares que compreendem a função artística da elaboração de cenários. O rico aspecto fora concebido por um cinéfilo que dá conta de alcançar traços do western spaghetti e John Ford, ao mesmo tempo que compreende a consciente fotografia a ser utilizada num cenário de vagas luzes.

Algumas críticas trazem o fato de Tarantino se delongar demais nesse seu novo trabalho. De fato, pelo menos uns 20 minutos poderiam ter ficado na sala de edição sem grandes comprometimentos. Entendo a verborragia por ter entendido Os Oito Odiados como dois filmes, ou dois capítulos. O primeiro refere-se a estruturação dos personagens, referenciando a colonização americana e alguns dos conflitos os quais o país passou. O segundo, em sua conclusão tórrida, é uma realização grandiosa num único cenário, lembrando saudosamente Cães de Aluguel, entre outras obras.

A força do cinema de Quentin Tarantino reside no capricho narrativo. O cineasta é um grande roteirista. É melhor como roteirista do que como diretor. Acho injusto dizer que ele é do tipo para se amar ou odiar. A seu favor está a maioria. É um cineasta popular, competente, que já estabeleceu sua marca. Mas, há, obviamente, quem odeie. Então não é a toa que logo no início o filme se apresente como sua oitava obra. Então os tais oito odiados não são somente seus oito ótimos personagens centrais.

Particularmente não gosto de uma reviravolta proposta pelo roteiro – a que diz respeito ao porão. Me parece simplória, por isso considero Os Oito Odiados uma obra menor na carreira do diretor no que diz respeito a sua reinvenção enquanto cineasta. Adoro seus filmes anteriores, inclusive Django Livre, seu falso western. No entanto sua condução narrativa é estupenda, cuidadosa e relevante para as pretensões de seu roteiro. Seus personagens ganham dimensão e conteúdo, razão pela qual nos importamos com eles, independentemente de julgamento de caráter.

Quando trago a possível existência de dois filmes em um, trato das insinuações de seu roteiro. A preparação e a conclusão, basicamente. No segundo ato, uma cena chave é executada durante a mise en scène. Ela se resolve por disposição de quadro, o que inspira deduções, favorecendo julgamentos e opiniões. A impetuosidade acentua-se. A violência é explícita e nada econômica. E se a violência elucida criticamente as condutas desprezíveis e opressivas de seus odiáveis personagens, é através dessa mesma violência que o filme se resolve. A violência é um estigma do cinema de Tarantino. Ela parece vitimar quem faz dela seu escudo.

E chega finalmente ao ponto de uma leitura de uma carta. Uma metáfora deslumbrante proposta em versos. A obra não poderia ser concluída de outra maneira.

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



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