Críticas

Published on março 3rd, 2015 | by Marcelo Leme

0

Crítica: Relatos Selvagens

modeloAlterearelatosselvagensVingança é um tema recorrente dentro do cinema. A década de 80, por exemplo, foi um verdadeiro celeiro de filmes com esse assunto. Dependendo da abordagem, o tema pode ser capaz de render significativas histórias. Há sempre quem quer ver esse tipo de conteúdo, há uma demanda antropológica diante a gama de seu fascínio. Qualquer espectador é capaz de lembrar vários filmes que traga vingança como cerne da narrativa. E este tema ronda todos as 6 histórias desse Relatos Selvagens, belíssimo trabalho argentino indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Temos basicamente 6 curtas que compõem o longa, todos tratando distintos assuntos que resultam em alguma forma desforras e respostas a desavenças numa retratação bem atípica do país. O que deixa tudo ainda mais interessante é o humor acético. Assim, prepare-se para rir das situações mais inusitadas possíveis.

A alegoria de Relatos Selvagens é a condição real de seus vários personagens. Os acontecimentos, por mais extravagantes que sejam, são incrivelmente possíveis. São situações cotidianas levadas a extremos, o que funciona como contraponto com o espectador. A loucura é compartilhada. 6 histórias são interligadas trazendo personagens em contextos hostis. A montagem eficiente dá conta de amarrar o filme juntamente ao roteiro episódico. O roteiro e direção são de Damián Szifron que acerta o tom, proporcionando uma experiência diferenciada de cinema a partir de vários personagens comuns – descompromissados com dimensão – vivendo situações rotineiras em autênticos dias de fúria. O que é o episódio da perseguição na estrada? Quase beira a nonsense.

O cinema argentino é, hoje, um dos melhores do mundo. Não à toa, alguns dos melhores filmes lançados ao longo desse século provêm de lá. Grandes cineastas também. Para citar alguns, Juan José Campanella, já explorou diferentes gêneros e faturou o Oscar; Lucrecia Martel fez de O Pântano (Ciénaga, La, 2001) um notável clássico sul americano; Lucía Puenzo é premiada no mundo inteiro e lançou há pouco o belo e histórico O Médico Alemão (Wakolda, 2013) – esteve na Mostra; Daniel Burman é outro jovem destaque cujo trabalho é mencionado em qualquer roda cinéfila; o jovem Pablo Trapero, um de meus prediletos, tem uma filmografia de dar inveja a grandes cineastas e seus filmes sempre estreiam comercialmente no Brasil. Bom, também tem Gaspar Noé, né? O curioso é: Damián Szifron parece não se encaixar em nada produzido no cinema argentino nos últimos anos. Sua tendência é socialmente satírica, como uma readequação de gênero.

O ascendente cinema argentino destaca-se, entre outras coisas, por seus roteiros afinados, pela estrutura. Ricardo Darín, um dos mais populares atores do país hermano está presente aqui, num dos episódios o qual a identificação projetiva é quase inevitável. O maior desafio desse longa, provavelmente, é manter o ritmo e o interesse do espectador por todas as histórias. Uma ser melhor que a outra é natural e subjetivo, a questão é como delineá-las sem comprometer a lógica narrativa?! Aí a mão do diretor e de seu montador teve peso. Ele esmiúça as histórias e abusa da catarse e do desafio, como um teste projetivo aos espectadores que aprendem logo de início que será difícil prever o que irá acontecer. Assim desenrola-se.

São tratadas histórias humanas e, enquanto humanas, partem de intimidades e sentimentos, todos explanados com vigor e desenvolvidos com pura comicidade. Penso que se fosse uma série funcionaria igualmente. Rimos de tudo, nos divertimos com tudo. É um filme bastante simples na verdade que consegue trazer o espectador para perto, pondo-o frente a tragédias particulares com o horror pessoal de figuras em seus mais caóticos dias. Torceremos pelo bem ou pelo mal de alguém? Isso pouco importa, o estrago é o plot independente e o contemplamos sorrindo quase como escárnio. Relatos Selvagens proporciona uma sequência de histórias malucas, todas incrivelmente relevantes, inconsequentes e deliciosamente divertidas.

Comments

comments

Tags: , , , ,


About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Back to Top ↑
  • ASSISTA NOSSOS FILMES DE GRAÇA

  • Parceiros

    Parceiro - Adorocinema
  • Parceiro - Centerplex
  • Inscreva-se no Youtube!