Críticas

Published on março 18th, 2015 | by Marcelo Leme

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Critica: Renascida do Inferno

renascidaChega a um ponto durante Renascida do Inferno em que olhamos para o lado, para o relógio, imaginando que o filme esteja próximo de seu final. Isso é causado pelo tédio e tédio é algo muito perigoso quando trata-se de filmes de terror. Ouso dizer, também, que se tal filme dependesse do clímax, estaria condenado. Ele até existe, mas é prejudicado pelo roteiro. Explicarei melhor adiante. E voltando a falar de tédio, se sentimos isso nessa obra que tem menos de 90 minutos, então algo está muito errado. A direção de David Gelb não permite com que a gente experimente o filme, não partilhamos de seus personagens e a atmosfera é distante. É como se alguém apenas narrasse uma história didaticamente. O curioso é que David Gelb é documentarista e ganhou relativa fama com o documentário O Sushi dos Sonhos de Jiro (Jiro Dreams of Sushi, 2011).

Diante o mencionado a cima, alguns podem pensar que documentaristas não são tão interessantes quando se aventuram na ficção. Errado. Wim Wenders ou Herzog que o diga. Mas há uma diferença narrativa entre ambos os gêneros e isso precisa ser entendido. Ambos são cinema. O que está a favor de Gelb é o elenco. Raramente em filmes de horror do gênero o elenco tem algum peso como acontece aqui. A começar por Olivia Wilde que se não é uma notável atriz, ao menos é competente e assume muito bem o protagonismo nas diferentes dinâmicas de sua personagem. Ainda tem Mark Duplass e Evan Peters, além de Ray Wise numa ponta. Atuação não é um problema, a disposição dos personagens é. Tudo basicamente gira em torno de uma dupla – e isso é compreensível até pela finalidade de embate ciência x religião – mas os outros personagens, deslocados, não são nada mais do que apoio, ou potenciais alívios cômicos.

Sobre essa ideia de oposição entre ciência e religião, é isso que dá profundidade a discussão do casal protagonista, dois cientistas, estando a mulher, Zoe (Wilde), curiosa sobre uma possível implicação metafísica sobre o pós morte. Isso provém de um trauma, algo retratado para nós através de seus sonhos. O grupo está fazendo experimentos com animais mortos, buscando trazê-los de volta a partir de um soro. O experimento dá certo – obviamente isso não é um spoiler – no entanto consequências vem juntamente. A partir do didatismo da forma que é contado, o filme traz aspectos que sugerem uma série de discussões a respeito de ética profissional ou limites da ciência frente a alguns de seus experimentos. São questões alçadas que não ganham qualquer fundamento, a não ser levantar discussões que morrem quando o terror se inicia.

Na construção do roteiro a coisa toda se arrasta demais e, repentinamente, quando os eventos que originam o clímax acontece, acaba acontecendo subitamente, indo de um ponto a outro sem transição. Resultado: o clímax não funciona pois não fomos preparados para ele. É como se estivéssemos bocejando e um telefone tocasse alto repentinamente nos assustando para logo depois continuarmos a bocejar. E tem mais, a possibilidade dos limites do cérebro. Usamos 10% de sua capacidade. E se usássemos mais, até onde iríamos? Tal discussão rolou atualmente na bela ficção Lucy (Lucy, 2014), de Luc Besson. Essa mesma discussão se passa aqui de uma maneira rasa, mais como justificativa para os eventos do que por tematização. É possível que Renascida do Inferno nem divirta o público com suas tentativas de causar qualquer susto ou de amedrontar por ambientação. Mais um triste fracasso para o gênero.

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



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