Críticas

Published on março 31st, 2015 | by Marcelo Leme

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Crítica: Simplesmente Acontece

modeloCineemProsaSimplesmenteAconteceEnquanto acompanhamos esse Simplesmente Acontece, percebemos uma série de clichês usuais, a começar pelo tema: garota e garoto não conseguem ficar juntos por circunstâncias da vida. Já viu isso no cinema, né? E qualquer um perguntaria: e como se livrar de tantos clichês? Impossível, ainda mais em um filme assim. Acontece que clichês não são pecados, o excesso e o desinteresse em reinventá-los é. Dito isso, esse romance se destaca comparado a tantos outros por ser honesto. E o que é ser honesto quando se concebe uma ficção? Honesto é querer ser relevante além de qualquer coisa, sem se prender debilmente a aspectos cinematográficos de cartilha, daqueles cuja intenção é unicamente garantir afeição do público a partir de tramas e manejos banais.

Uma das melhores coisas aqui é o carisma do casal central vivido por Lily Collins e Sam Claflin. Dois jovens que desde muito cedo são amigos inseparáveis, um casal que nega paixão e se aventura em outros romances ignorando o que sentem por convenção, ou por falta de oportunidade em se declararem. Ou por burrice. Seus olhares os denunciam. Não importa a razão, o filme tem que partir de algum lugar e assim ele atravessa anos da vida desses dois que crescem, estudam, trabalham e casam, mantendo no íntimo a angústia pelo não dito: nesse sentido o filme é bom, pois extravasa com humor feitos e arrependimentos sem medir consequências. E também nesse sentido o filme falha pelas convenções (personagens estereotipados, roteiro remendado e desencontros forçados), algo que infelizmente a direção nula desconsiderou.

Se ignorarmos aspectos técnicos que o filme cumpre burocraticamente, resta quase que unicamente a história e seus intérpretes a serem observados. A história mescla humor e drama num romance sofrido, residente nas idealizações de seus personagens. Os acontecimentos não são arbitrários, eles levantam uma série de questões relacionadas a distintas formas de responsabilidade.  O desenvolvimento é vago, mas ao menos as implicações existem. Não dá pra ser feliz o tempo inteiro. Talvez a verdade seja: não dá pra ser feliz, dá pra se ter momentos felizes. Há coisas que acontecem e cada uma delas tem um custo. As escolhas tem custos, mas algumas delas não estão sob nosso controle. Nesse ponto o título brasileiro é feliz ao resumir o filme, ele simplesmente acontece. É isso.

Já sobre os intérpretes, o casal funciona e o roteiro, ainda que esquemático, visa dar atenção integral a dupla. Quando expõe ambos juntos, o filme torna-se açucarado e divertido, ganha sorrisos, ganha nuances que lhes concede beleza plástica, como a luz do sol de fundo incidindo sobre seus rostos, a iluminação rosada explicitando o romance sutil, a trilha indie e o divertimento compartilhado que marginaliza os outros personagens. É bonito de se ver. Só. Tudo isso junto dá força a dupla e nos aproxima de ambos. A direção inexistente de Christian Ditter – que usa grua e outros artifícios de filmagem como se estivesse brincando de filmar – deixa que a dupla central dite o ritmo sobre o roteiro. Felizmente essa dupla estava em sintonia. Já o filme, ainda que busque alguma novidade, está dissonante.

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



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