Críticas

Published on abril 25th, 2015 | by Marcelo Leme

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Crítica: Vingadores: Era de Ultron

modeloCineemProsaVingadoresQuando escrevi sobre o primeiro filme dos Vingadores, usei o título: “Um ode ao fascínio dos heróis”. Havia óbvias razões para isso, foi um grande filme, bastante esperto, dinâmico e divertido e honrava cada um dos personagens. Aqui a coisa não se altera tanto, continua dinâmico e divertido, honra seus protagonistas e abarca novidades, porém é sabotado por sua própria megalomania. É um prazer acompanhar esses heróis, acompanhar o progresso das produções da Marvel e perceber o cuidado que os produtores têm ao amarrar tão bem os filmes e seus personagens. Mas há um problema notável nesse aguardado filme: tantas cenas de batalhas magnânimas dão uma impressão negativa a história, funcionando muito mais como um vídeo game do que como cinema, arrastando-se por tempo demais trazendo excesso ao que poderia ser econômico e suficiente. E não entendam tal comparação como uma inferiorização do universo dos games, o que coloco é uma diferenciação enquanto estética e experienciação por parte do público. Temos em Vingadores: A Era de Ultron um ode ao declínio provocado pelo cego ideal de grandeza.

Na ansiedade pelo lançamento e diante a inevitável empolgação, é obviamente um filmaço. Basta uma noite de sono para o impacto ser menor e, se você não for fissurado nesse universo, lembrará com mais carinho de alguma outra obra cinematográfica mais significativa. Mas espere aí, o filme está muito longe de ser ruim. Muito longe mesmo. É uma daquelas sessões agradabilíssimas, divertidíssimas, as quais somos capazes de ver muitas vezes. Porém, percebam, há esgotamentos em alguns instantes, daqueles que sentimos quando assistimos produções medíocres, tal como Transformers que nada mais apresenta do que ação descerebrada, lataria esmagada, frases de efeito, mais ação e destruição em meio a muito pouco a dizer. Não é o caso aqui, seguramente, mas em certos pontos chega perto.

Esse Vingadores: A Era de Ultron acerta em vários tons, deve muito diante ao que prometeu, mas dá conta em não desapontar seu público. Qualquer público. Sua longa duração não o estraga, mas poderia sofrer alguns cortes sem prejuízos. Não menciono cenas para não dar spoilers. Há outro problema: alguns de seus grandes momentos já foram vistos nos trailers. Se você é fã de tal universo, irá se divertir assim mesmo, mas se acompanhou todo o material de divulgação, então não encontrará nada tão empolgante exceto por duas ou três surpresas. Cinema não se faz para um nicho, cinema se faz para todos. Aí reside sua beleza, significar, ressignificar, representar. Não acho que este filme, mesmo com todas suas referências, seja feito para um único público. Não, e isso é absolutamente positivo. Há vários temas e oportunidades de identificação projetiva que viabilizam um interesso coletivo.

Esse novo lançamento da Marvel nos oferta umas daquelas sessões que nos faz grudar na cadeira desde a primeira cena, a introdução que praticamente nos joga para dentro do filme é satisfatória, ainda que totalmente dependente da trilha sonora estafante. A imagem não dá conta de provocar as sensações que o filme pede. Aí faz falta um grande diretor e a lógica de cinema. Essa introdução nos lança a uma explosão de adrenalina inicial que logo termina para o filme finalmente começar. Em seu aparato estético, muito do que vemos origina-se de uma transposição do que pode ser visto nos quadrinhos. Fica bonito. E posso recomendar que assistam ao filme ignorando o 3D que é ruim e impede que admiremos o belo desenho de produção e seus vigorosos efeitos.

O roteiro é formulaico e não abre mão de muletas para a história ser tocada adiante. Desculpas são criadas o tempo inteiro para que a atenção recaia em outra ótica. Não se trata de subtramas, mas de conjunturas que contribuem com as pretensões homéricas. A injeção inicial, conforme já mencionada, é um convite interessante para os fãs que querem ver seus ídolos em ação e é o que acontece. Sem novidades, explana-se o conceito do heroísmo para depois discussões críticas fundamentarem a trama. Muita coisa acontece e há relevantes sacadas que fazem menções às condições políticas contemporâneas e discussões a respeito de inteligência artificial estabelecendo referências que engrandecem a experiência de se assistir a obra. Ganha forte consideração por isso, por não se ater unicamente ao entretenimento puro e convencional. Ele busca fundamentos que empregam significado a existência do filme e da ideia por trás de toda sua concepção.

Ainda sobre o roteiro e seus empregos, este é cuidadoso ao dedicar tempo a todos os seus personagens, lançando novidades nesse quesito, esboçando uma particularidade a mortalidade e ao glorioso existencialismo americano ao melhor estilo de Kathryn Bigelow. Jeremy Renner busca lampejos naquele que foi seu melhor papel no cinema quando viveu o Sargento William James em Guerra ao Terror (Hurt Locker, The, 2008). Mas colocar tantos personagens começa a ficar perigoso. Você que já assistiu percebeu algumas mudanças nesse sentido e provavelmente se surpreendeu. Bom para o filme e para o espectador, mas até onde vai? E até onde vai seu marketing que é quase capaz de destruir todo seu universo inventivo enfraquecendo a novidade? Conciliada a megalomania que já demonstra estar gasta em produções semelhantes, o ideal de grandeza parece pender muito mais ao lucro do que na relevância.

O elenco está em sintonia, inclusive as caras novas. Estão habituados as personas e a direção não tem lá muita preocupação com a coordenação dos atores. Eles simplesmente se divertem em cena. Abre-se espaço para novidades e nesse sentido vale ressaltar Elizabeth Olsen, atriz em franca ascensão desde o ótimo Martha Marcy May Marlene (Martha Marcy May Marlene, 2011) que dá uma vitalidade moderada a sua Feiticeira Escarlate; também chama atenção James Spader que dá voz a Ultron e despende toda a ameaça representativa que lhe cabe imponência antagonista. Perde um pouco tal status quando é rendido ao humor, tal como os outros personagens, uma característica natural da Marvel. Benéfico também foi perceber que as risadas deram muito mais espaço às dramatizações, o filme projetivamente tornou-se mais sério, aliviado por excelentes gags visuais.

Bem desenvolvido, recheado de atrativos tecnológicos e referências históricas, também tem momentos cômicos e a ação masturbatória está coligada aos efeitos competentes – esses pouco importam para o curso da história, contribuindo unicamente para a plástica. O filme se desenrola seguro, mas sem a mesma empolgação de seu pioneiro. Presentes no imaginário popular, hoje os vingadores são revisitados e pouco surpreendem. Esse não é um problema aqui, mas será se os rumos tomados no vindouro não buscarem outras ferramentas que não o entretenimento passageiro cujo grande objetivo é vender filmes e bonecos para nerds. O arco criado é promissor e o viés sombrio demarca uma pegada artística que lhe transforma e lhe reinventa. O cineasta Joss Whedon cria mais um belo filme para a franquia, ainda que com seus desvirtuamentos que o impedem de ser ainda maior, talvez pela ganância, pela sedução do absurdo, pela pirotecnia das cenas que ofuscam o que há de melhor em seus personagens: suas humanidades.

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



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