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Published on novembro 18th, 2015 | by Marcelo Leme

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Jogos Vorazes x Maze Runner x Divergente

Vale comparações?

Baseados em obras literárias de grande sucesso, Jogos Vorazes, Maze Runner e Divergente são franquias que deram certo e se consolidaram praticamente ao mesmo tempo. Outras similares fracassaram. O que fez essas 3 funcionarem? O que as diferencia no concorrido mercado? Quais vão além de um entretenimento momentâneo?

Eu não conseguiria analisar, por exemplo, quais tiveram a melhor adaptação, uma vez que não li nenhuma das obras. Queixas com relação a isso são recorrentes entre os fãs. Sendo linguagens diferentes, o cinema pode – e deve – readequar o que fora feito no livro. É possível perceber passagens em ambas as histórias que comprometem o ritmo e o roteiro, o que implica na narrativa e desenvolvimento. Provavelmente boa parte dessas passagens estão presentes para agradar unicamente seus fãs. É natural, há um público sedento pelos filmes que questionariam ausências que viram nos livros, porém, essas gorduras – nome que damos a excessos desnecessários – comprometem muito a versão cinematográfica.

Vamos pensar em questões independentes de cada um dos filmes.

> Roteiro

Maze Runner filme atores

Os roteiros são parecidos, com raras exceções. Jogos Vorazes começou de um modo e está terminando de outro. O roteiro passou por transformação e readequações frente às críticas que recebera. Infelizmente passou por várias mãos, sendo concluído por Danny Strong. Os elementos centrais permanecem, o idealismo e o romance com reviravoltas se estendem como atrativos em meio a um maniqueísmo tradicional. O roteiro é fortalecido pelos diálogos e pela boa carga dramática investida em seus atores principais. Divergente sofre o mesmo problema com mudança de roteiristas. Nesse a ação reina mais do que o drama de seus personagens. Os pontos de virada não tem tanto peso, a ambição e as representações dão mais valor a obra. Já Maze Runner, por ter iniciado mais modesto – o orçamento é risível comparado às outras franquias – é mais simples e objetivo. E isso é fundamental! Em sua simplicidade, não se complica. Se perde em excessos – as gorduras mencionadas – por atribuição e visando a apreciação de seus fãs. Dribla com manejos e com a funcional receita de gerar expectativa, tal como numa obra policial convencional ou em uma novela. Todos vão querer ver o próximo.

Nenhum dos filmes possui um roteiro louvável, mas Maze Runner me parece manter uma estrutura melhor e até corajosa. Ponto para Maze Runner.

> Desenvolvimento do arco narrativo

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Já fora mencionado o quão o roteiro influiu nas histórias, independentemente da adaptação. Parece claro que Maze Runner mantém-se econômico ainda que ousado com invenções criativas, além de ser bem estruturado; e Divergente vislumbre a ação com um viés melhor do ponto de vista da personagem principal. Já o que tem muito mais densidade e relevância é o desenvolvimento do arco de Jogos Vorazes. Além da história de sua protagonista, há subtramas e independência de gênero, gerando muito mais conflitos que vão muitíssimo além de um grupo de jovens contra a autocracia.

Ponto para Jogos Vorazes.

> Arte

Maze Runner, aijogos-vorazes-em-chamas43805nda que mostre-se caprichado e alinhado com seu universo, perde atenção diante os magnânimos universos de Jogos Vorazes e Divergente. A arte, aliada ao trabalho de fotografia e efeitos especiais, garantem um duelo magistral entre ambos. Jogos Vorazes está a frente pelo apuro técnico que corresponde outros atributos que infelizmente não possuem a atenção merecida: maquiagem e figurino. Ambos não são gratuitos.

Ponto para Jogos Vorazes.

> Ação

Se tratando de ação, Jogos Vorazes não acompadivergentenha os outros dois filmes, até pela abordagem diferente. Maze Runner cresce, é um filme que acompanha o progresso de seus personagens. Tem um grupo que precisa vencer percursos e obstáculos mortais. Já Divergente dispensa toda aquela ambientação apresentada em seu início, com as facções. Agora a coisa toda parece ser resolvida na bala. Boa parte do filme é intensamente movimentada e preocupada com a ação, fazendo dessa um atributo indispensável e não um mero recurso.

Ponto para Divergente.

> Função (implicações além da ficção)

Insurgent TrisTodos os filmes possuem funções que vão além da história retratada. Geralmente essas funções representam questões de sua época, o que favorece desenvolvimento de linguagem e crítica. Os 3 filmes parecem preocupados em retratar governantes autoritários. Mostram que é preciso romper com o sistema. A ficção dialoga com a realidade. Nesse sentido, muito me chama atenção o desenvolvimento dado a Tris, protagonista de Divergente. Tal como os protagonistas dos outros filmes, luta contra a opressão. A diferença é a representação significativa e influente da persona Tris: a heroína não atende a representação social do que esperam que a mulher tenha. Ela é uma heroína, tal como Katniss Everdeen de Jogos Vorazes. É uma heroína que se assume como quer, com o corte de cabelo curto, por exemplo, similar a Ripley de Sigourney Weaver no monumental Alien. Há muito conteúdo investido nela que transgride a forma como a mulher é vista no cinema. As atrizes têm salários menores que o dos homens e papeis que visam quase que exclusivamente suas sensualidades. Nesse sentido, Divergente oferece mais do que os outros filmes. Oferece mais do que uma simplória heroína.

Ponto para Divergente.

> Maniqueísmo

donald_sutherland_68143Todos os filmes tem um vilão em comum: o poder diretivo. Dessa forma, vale muito mais pensar sobre os representantes de cada instância desses poderes. Os 3 filmes tem atores esplêndidos. A Jeanine de Kate Winslet em Divergente talvez seja a menos empolgante e, às vezes, burlesca. Já a Ava Paige de Patricia Clarkson empolga mais pelo que o roteiro oferece a ela, carregando um tradicionalismo antagonista baseado em farsas e surpresas. Quanto ao Snow de Donald Sutherland, além de ser representado com brilhantismo e com presença, carrega uma imponência magnânima e lida com um objetivo mais complexo que não diz respeito unicamente a findar o outro, mas arruinar o que este outro representa.

Ponto para Jogos Vorazes.

> Elenco

Maze Runner traz um elenco modesto, mas muito eficiente. Destacam-se a ótima Patricia Clarkson e os prósperos Thomas Brodie-Sangster e Kaya Scodelario. Já em Divergente, a atenção se volta para Kate Winslet, Ashley Judd, Naomi Watts e o promissor Miles Teller. Eles interessam muito, mas ficam aquém do time de Jogos Vorazes que conta com nomes como Donald Sutherland, Stanley Tucci, Toby Jones, WoodyHarrelson, Julianne Moore e o falecido (e genial) Philip Seymour Hoffman.

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Ponto para Jogos Vorazes.

> Protagonistas

ID_D47_17954.dngO nova-iorquino Dylan O’Brien, que vive Thomas em Maze Runner, tem muito mais carisma do que talento. Sua interpretação baseia-se em fazer cara de espanto. Shailene Woodley e Jennifer Lawrence são duas das melhores atrizes que surgiram nos últimos anos. Shailene arrepiou em Os Descendentes e vem numa onda independente; Lawrence tornou-se queridinha em Hollywood. Talentosa, levou o Oscar pelo aborrecido O Lado bom da vida como desculpas por não ter levado por Inverno da Alma. Ambas as atrizes assumem duas exímias protagonistas. Particularmente, gosto mais do trabalho de Shailene Woodley, no entanto, frente às personagens Katniss Everdeen e Tris, parece inegável a força que Lawrence exerce sobre a história de Jogos Vorazes.

Ponto para Jogos Vorazes.

>Direção

maze-runner-ball-cast-750x380Não há uma direção que não se curve para as fórmulas usuais. Jogos Vorazes está consolidado. Divergente está em ascensão. Ambas são seguras em suas fórmulas. Já Maze Runner, em meio as suas limitações – comparado as produções dos outros filmes –, é o que mais oferece novidade e ousadia. Não há medo de tentar. Nesse sentido, o que Wes Ball está fazendo merece muitos créditos.

Ponto para Maze Runner.

No placar final, Maze Runner somou 2 pontos, Divergente somou 2 pontos e Jogos Vorazes somou 5 pontos. Sabe o que isso significa? Nada.

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



One Response to Jogos Vorazes x Maze Runner x Divergente

  1. Tiago says:

    Prefiro Mazer Runner

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