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Published on janeiro 7th, 2016 | by Marcelo Leme

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Meu 2015 em imagens, trilhas e tramas – Por Jéssica Balbino

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Por Jéssica Balbino*

Sem querer, minha lista tornou-se temática. Fala sobre gênero, essencialmente. Sobre padrões de beleza e sociais. Nem todos os filmes são de 2015, mas são os que eu vi durante o ano – entre filmes e séries – então, são meu 2015 em imagens, trilhas e tramas.

– Que horas ela volta? (Anna Muyalert)

Para mim, o melhor filme do ano, disparado.  Começa desde ter uma mulher na direção, até a trama, a forma como as cenas foram captadas e, claro, o tema abordado. “Que horas ela volta?” é um filme que provoca toda a sociedade, que coloca o dedo da ferida da forma mais sutil que existe:  escancarando a realidade com naturalidade. Regina Casé vem no papel da empregada doméstica Val e dá voz a todas as empregadas, aliás, a todas nós, que nos matamos em nossos empregos, temos os patrões como família, mas sabemos nosso lugar no quarto dos fundos.

As posições de gênero também ficam muito claras no longa. Os homens da casa não se levantam da mesa para nada: pegar um prato, água ou sorvete. Quem faz isso tudo são as mulheres e aí, Anna Muyalert vai além: escancara e grita também sobre o machismo. O recado é sutil, ou não. Mas, incomoda.

Particularmente, o filme mexeu muito comigo. Sou um tanto da Jéssica, filha da Val. Sou a pobre que disputou vaga com os filhos de ricos de todos o Brasil em uma universidade pública e passei. Sim, sou essa. Sou a que não se acomoda com os lugares postos. Sou a Jéssica.

 – Numa escola de Havana (Ernesto Daranas)

Para além das revoluções comunistas e de um Fidel Castro no poder, Numa escola de Havana fala sobre as relações, sobre a violência das relações e sobre a educação. Carmem, interpretada por Aline Rodriguez (em memória) dá o tom de todo o filme, através da relação com seu aluno, Chala, um garoto de 11 anos, que tem uma mãe viciada em drogas, que se prostitui e participa de rinha de cães para conquistar algum dinheiro e sobreviver.

No ambiente violento e marginal de Havana Velha, o garoto encontra refúgio e laços, que lembram o que deve ser uma família, na presença da professora.

Os tons pálidos e nostálgicos de Cuba deixam o filme mágico. Vale muito a pena ver, e vale mais: questionar a educação no Brasil, comparada a que é modelo em Cuba, e entender os motivos.

– Linda de Morrer (Cris D’Amato)

Com Glória Pires no papel principal, a trama é muito interessante, mas está longe de ser um bom filme, no entanto, a “moral da história” é bem interessante. Ainda no tema de padrões e gênero, é importante destacar que o filme faz, o tempo todo, piadas com gordofobia, além de ser estereotipado: empregados negros em uma casa de brancos ricos. No entanto, para além disso, critica a busca frenética e por vezes, ensurdecedora, pelo corpo perfeito. Uma das falas da personagem principal é: meu corpo é tudo que tenho. E ela precisa MORRER para entender isso. Ou seja, vale pela lição de moral que fica.

– Paraíso (Mariana Chenillo)

Embora não seja de 2015, eu quis coloca-lo nesta lista, justamente por ser temática. Além de ser dirigido por uma mulher (sim, valorizo isso), é um filme que fala de um assunto urgente: a gordofobia. No entanto, só tratar da gordofobia não basta. Na trama, um casal que vive super bem e se dá melhor ainda muda-se do subúrbio para a Cidade do México, por conta de uma transferência do homem. Novamente, vemos um filme dirigido por uma mulher que tem na figura masculina o fator determinante para o comportamento feminino. A esposa abandona o cachorro, a família e a geladeira grande e muda-se para um apartamento pequeno, na capital do país. Logo na primeira fez ouve duas mulheres que serão colegas de trabalho do marido criticarem ambos, chamando-os de porcos por serem gordos. Feliz até então com a vida que levava, a personagem passa a se questionar sobre quanto ser gorda e decide entrar para um grupo de apoio de comedores compulsivos. Convence o marido a fazer dieta e a partir daí, tudo vai ladeira abaixo: ele consegue emagrecer e ela não. Como consequência, mais  mulheres se interessam por ele – dando aqui a entender que uma pessoa só é atraente se for magra – e ela passa a viver os dias em looping, infeliz com a nova vida, engordando cada vez mais. É interessante o filme, porque fica na ‘moral da história’, o lance de que não importa como você é, se um cara te amar, vai ser gorda, só que exibe e bota o dedo na ferida de uma forma muito padrão no problema. É um filme importante, mas longe de ser excelente.

 – Ponte Aérea (Júlia Rezende)

Foi uma grata surpresa assistir o Ponte Aérea. De uma diretora de apenas 28 anos, trata dos relacionamentos na era da modernidade líquida. A trama é boa, a trilha também e os atores formam um par muito gostoso de ser visto, sem falar que a proximidade com a realidade é muito grande. Desde as gírias ora usadas no RJ ora usadas em SP, até a rivalidade entre as duas capitais e seus habitantes. Nele, o papel da mulher independente é destacado e me agrada muito por isso. Vi, revi e super recomendo. É uma produção nacional pra além do favela movie, pra além dos clichês pastelões das comédias, mas que faz rir, chorar, emociona. Uma palavra pra descrever esse filme seria: maduro.

– Orphan Black

O seriado que já está indo para a quarta temporada chamou a minha atenção em um domingo que eu estava zapeando o Netflix. O canal é excelente, mas as sinopses são as piores do mundo..rs, mesmo assim, resolvi arriscas e me prendi logo no primeiro episódio.  Tatiana Manslany dá vida á Sarah Manning, uma jovem que é envolvida com drogas, está com a vida pelo avesso e vê uma mulher, idêntica a ela, se matar na plataforma de trem. Ela decide, então, assumir a identidade desta mulher para resgatar um dinheiro. A partir daí, a ficção científica toma conta do seriado, mas de uma forma sutil, revelando que existem não só uma – mas várias – iguais a ela e a ‘gêmea’ morta.

O incrível é que além de ter uma mulher como protagonista, ela interpreta metade do elenco com maestria.  A série aborda, também, questões como valores, família, drogas e, claro, gênero. Eu espero ansiosa a próxima temporada.

– Orange is the new black

Também indo para a quarta temporada, eu já tinha lido o livro da Pipper Kierman, mas confesso que esperava mais, então, tinha preguiça de ver a série, mas, depois de comentários positivos de várias amigas, resolvi arriscar. Além de divertida, passa-se num ambiente 90% feminino – uma prisão dos EUA com mulheres – e traz dramas, dilemas e vivências destas mulheres, desde paixões por colegas de cela, a coisas básicas como tomar banho de uma forma higiênica, comer, menstruar, etc. Vale muito.

– How to get away with murder

A protagonista é uma mulher. E esse argumento já seria quase suficiente para eu ver a série. Mas ela é uma mulher negra. Aí é melhor ainda. E ganhou o Grammy deste ano pela interpretação – inclusive, concorreu com a Tatiana Malsany, do Orphan Black – e foi merecido. A série tem uma trama policial sobre crimes e como o título já diz: como se livrar de um assassinato.  Viola Davis interpreta uma advogada, professora universitária e que pega uma turma de jovens justamente para ensinar como se livrar de um assassinato com um corpo. Vale pela trama, pela interpretação impecável, pelo tema.

– Jessica Jones

Sim, chegamos à Marvel. Foi o último seriado que eu vi no ano de 2015. E vi de repente. Vi assim, em dois dias. Me vi totalmente viciada e sem fim até acabar. É incrível. Jessica Jones é heroína pra vida.  Violentada, sozinha, mal amada, ela luta contra um agressor e conta com a ajuda de super poderes. Fora ela conseguir voar e ter uma força descomunal, é como qualquer outra mulher do mundo: pagando o preço de ser mulher. Pagando o preço de deixar a mente ser dominada por um homem. Super indico e urgente.

– Sense8

O que menos importa em sense8 é a trama ou os mistérios que estão por trás de 8 pessoas de diferentes partes do mundo interligadas pelas sensações. O que o ator gay sente no México, a lutadora de artes marciais sente na Coréia. O que o africano sente ao pilotar seu ônibus é o mesmo que a indiana prestes a se casar sente. E, são personagens assim: gays, africanos, mulheres prometidas em casamento, uma Dj com depressão e viciada em drogas, um motorista de ônibus, uma lutadora empresária, uma transexual que dão o tom da série. Sem mocinhos ou vilões, todos sentem a mesma coisa e agem em conjunto. E a magia esta toda aí. É uma série para além dos estereótipos e que prende justamente por isso. Altamente recomendo.

  • Jéssica Balbino é jornalista

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



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