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Published on fevereiro 15th, 2017 | by Marcelo Leme

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O sonho que não existiu: uma consideração sobre “La La Land” e “Mommy”

“E se…”
O sonho que não existiu

Contém spoilers. Se você não assistiu aos filmes “La La Land”, de Damien Chazelle, e “Mommy“, de Xavier Dolan, recomendo que não leia.

Ao final de ‘La La Land”, muitos compartilharam uma mesma satisfação. Satisfação de cinéfilo, satisfação de quem é apaixonado por cinema.  Tal satisfação não diz respeito necessariamente a qualidade do filme enquanto obra cinematográfica. Há quem goste. Há quem não goste. E quem pode dizer quem está errado?  “La La Land” oferta uma oportunidade de viagem, de revisitar musicais a partir de referências aos clássicos, de perceber traços da nouvelle vague e as menções declaradas ao cinema americano da década de 40 e 50, seja através de filmes citados ou de imagens, como o rosto de Ingrid Bergman num colorido papel de parede em um quarto. “Mommy” entra mais no caráter de estudo de personagem, traz alguns aspectos artísticos muito eficientes, como a montagem que tem papel narrativo fundamental. Ambos os filmes contam com grandes canções e ambos os filmes são dirigidos por jovens cineastas.

Próximo do fim de “La La Land”, somos levados por uma canção e por uma série de imagens estonteantes de teor onírico que traz uma possibilidade do que poderia ter acontecido na vida do casal protagonista, caso de fato tivessem ficado juntos. O “e se…”, com certa frequência, aparece no cinema a partir de personagens que questionam suas próprias escolhas e imaginam como tudo poderia ter sido caso suas decisões fossem outras. Muitos são os recursos narrativos para trabalhar essa percepção. E é fácil se identificar com isso, afinal, quem não já perdeu o sono com a mesma questão?

“La La Land”, de Damien Chazelle, e “Mommy“, de Xavier Dolan, trabalham tal noção de maneira similar. Arriscaria dizer que “La La Land” usa a mesma estrutura – fórmula – narrativa de “Mommy” quando vislumbra o sonho de um futuro feliz no curto tempo de uma canção, até que ela acaba trazendo de volta o presente. Este às vezes é penoso por tudo que existe nele – OU É PENOSO POR TODAS AS EXPECTATIVAS QUE NÓS, ESPECTADORES, DEPOSITAMOS NOS PERSONAGENS QUE APRENDEMOS A GOSTAR. O plano detalhe não esconde a frustração no olhar de seus personagens, como se ao focá-los, traduzisse um só pensamento: “e se fosse diferente?”. E as vezes vai além: “como teria sido?”. Resta a fagulha do sonho a qual todos nós em algum instante saboreou, com gosto de mel ou de fel. O cinema é capaz disso.

“La La Land” apresentou essa hipótese, reverteu a lógica da ilusão própria do cinema. “Mommy”, em meu ponto de vista, foi ainda melhor. Trouxe a relação conturbada entre mãe e filho e encontrou em seu ato final um instante desolador. Neste texto refiro-me as duas obras, mas o cinema está abarrotado de outros exemplos com recursos similares em abordagens diferentes. Parece-me que os roteiristas encontraram um novo método funcional de saturar os sonhos, frustrar os espectadores e deixar na memória desses alguma lembrança sensorial de desencantamento logo após tê-lo encantado com a verdade de suas mentiras. O cinema é mesmo belo em reproduzir a vida.

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



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