Entrevistas

Published on julho 18th, 2016 | by Marcelo Leme

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Prosa com Bruno Autran

Entrevista realizada com o diretor de “Coração pela Boca”, filme selecionado para o FestCine Poços de Caldas.

IMG_3843 trat.baixaSeu filme é originalíssimo. Muita gente questiona narrações em off, geralmente por essas pouco oferecerem narrativamente a um filme ou servirem como muletas ao roteiro. No caso de sua obra, ela é necessária e importante para sua finalidade. E o melhor, o texto é interessantíssimo. Até me fez recordar de Brás Cubas. Você escreveu “Coração pela Boca”, não é? De onde surgiu a ideia para a concepção do filme?

Bom, primeiramente agradeço as impressões colocadas aqui… Uau, Machado de Assis? Acho que ficou em mim, O Machado. Dos tempos em que estudava pra passar no vestibular da UFMG. Sim, sou mineiro! De Belo Horizonte. Naquela época não existia o Enem! O esquema era ralar muito pra passar. Foi nessa época que me defrontei com ele, o Machado, e com alguns outros, mas o que me marcou mesmo, foi o Drummond. Seu sentimento do mundo.  Conterrâneo. Talvez venha daí. Não sei. Fato é que a minha vida deu voltas. Geralmente ela dá. Não é o caso de explorar essa história agora, mas enfim… vim parar em São Paulo. Numa cidade preto e branca de tons acinzentados. Uma cidade, onde, diferente de Belo Horizonte, o ser humano é capaz de viver paixões passageiras. Platônicas. Projetáveis. Na capital mineira tive meus amores, e eles eram concretos, interioranos, as vezes bobos, mas nunca platônicos.  Bastou pegar o trem… o metrô pela primeira vez, pra entender que ali eu poderia viver as maiores histórias de amor da minha vida. Um palco. Um cinema. Sonhos. Desejos. Basta parar pra ver. Te desafio. É impossível passar ileso. De repente você se vê casado. Imagina uma vida do lado daquela pessoa. Fantasia diálogos. Ações. Newton. Reações. E quando se dá conta, está ali parado com cara de sonso sustentando um sorriso trouxa no rosto. Ela foi embora. Ele foi embora. Passou. Passagem. Acredito que foi assim. Já estava em mim. A história. Precisava apenas expurgar. Vomitei palavras. Escrevi para que outra pessoa dissesse. Um outro ator. Ele não levou pra frente e tal texto acabou ficando esquecido na memória do computador.  Certo dia, um amigo, fotógrafo do filme, com o qual tinha trabalhado em outros curtas metragens, me contactou perguntando se não havia algo que podíamos fazer sem precisar gastar dinheiro. Ele queria testar uma câmera nova que recém adquirira. Pensei um pouco e abri um pasta perdida no meu computador. Estava lá: O coração. A boca. O coração pela boca. O nome não era esse. Acho que chamava “Metrô”. Horrível, não? Pois então. Tenho algo. Se passa todo dentro do metrô, vamos fazer? Ele me disse: Tem autorização? Estou rindo agora. Nesse momento gargalho, pensando em como seria impossível fazer esse filme com autorização. Respondi que faríamos cinema de guerrilha, que seria foda e que não precisaria de microfone. Iríamos pras estacões, apenas eu e ele. E caso um segurança chegasse, alegaríamos que estávamos fotografando para faculdade – A câmera utilizada foi uma Sony A7s, uma câmera que também tem utilidade fotográfica e que por isso, p[assaria despercebido. E assim foi. É maluco dizer, geralmente as pessoas não acreditam, mas gastamos apenas 500 reais pra fazer o filme. Em um dia, eu e Kauê( o fotografo) perambulamos pelos metrôs da cidade em busca de planos.  Nós percebíamos algo interessante e nos colocávamos em ação. No quarto dia, o mais complicado, precisávamos filmar com as meninas. Uma aventura. Telefone a postos. Corre para o metrô Liberdade. Vamos filmar em 30 minutos. E assim o foi. Do jeito que tinha que ser. Que deveria ser.  O texto foi sendo lapidado na edição. Um trabalho de desapego. Hoje, vendo o filme, acredito que cortaria muito mais. Deixaria o curta mais imagético. Mas o que foi feito, está feito. Toda vez que assistir à um filme que de alguma maneira participei, vou querer mudar. Estou em formação. Sou liberiano. indeciso. Nem sei se acredito nisso. Dúbio. Duplo. Estou rindo. me divirto. Amo.

Seu filme é envolvente tecnicamente. Por quê escolheu o filmar em p&b?

Nessa primeira pergunta acredito que me empolguei. Vou ser menos prolixo. Pelo menos espero. Menos poeta. E olha que nem sou. Talvez seja resultado da cerveja que tomei agora pouco. Acho que já li isso em algum livro. Já estou enrolando. Agora rindo. Lá vai. Uma cidade preto e branca, nublada, cinza. Que engole seus habitantes. Metrópole. Dura. Geométrica e solitária. Ah. Solidão. A solidão é preto e branca. É uma nuvem sobre nossa cabeças. A solidão é uma fotografia de jornal. Em preto e branco. Isso é São Paulo. É Nova York. Tokio. Londres. Não há tempo pra se apaixonar. A cidade não pode parar. É uma máquina. Uma engrenagem. Metálica. Restam os sonhos. E os sonho são em branco e preto. Serão verdades? ” Chegou um tempo em que não adianta morrer. Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. A vida apenas, sem mistificação.” Drummond. Acho que por tudo isso. E talvez por mais. Porém, jamais gratuita.

 

Há uma cena fascinante feita dentro de um metrô. Um plano sequencial. Como foi filmar no movimentadíssimo metrô de São Paulo?

Acho que já falei um pouco de como foi o processo de filmagem na primeira pergunta, mas aqui posso acrescentar alguns fatos. Tomara que não seja processado depois. Algumas vezes fomos abordados por seguranças do metro. Eles perguntavam o que estávamos fazendo e a resposta era sempre a mesma: Ou um curta de faculdade, ou um ensaio fotográfico.  Por três vezes nos pediram autorização. Eu dizia que iramos buscar e… pluft…sumíamos. Depois de duas horas, voltávamos discretamente e gravávamos, pois os seguranças trocavam de turno.  Fora isso, não foi muito traumático. Algumas situações eram como performances. Ficava parado e deixava as pessoas seguirem seus fluxos. Ela seguem. A cidade é grande. Tem louco em tudo quanto é lugar. E a vida deve seguir. No ritmo que a cidade impõe.

Você tem atrizes bastante expressivas. Pela falta de diálogos, precisou resolver algumas questões através da imagem. Como foi a seleção dessas mulheres? São todas atrizes?

Sabe o que é engraçado. Eu sou ator. Sempre que pegava um roteiro ia logo querendo saber quais eram as minhas falas. Ingênuo. A interpretação é um conjunto. É maior do que um diálogo bem dito. Atuar é ser. Mesmo sem dizer. É olhar. O olhar que fala. Escolhi atrizes que sabiam disso, que entendiam a linguagem, mas que sobretudo, acreditavam no que o filme dizia. Sem precisar dizer.

Você tem outros filmes?

Tenho outros curtas sim. E todos independentes. “Pedaços”, “Dentro”, “Dueto”, “Deja Vu”, “Museu das Pequenas Lembranças” e “Objeto/Sujeito”. Também sou fundador do coletivo de cinema NA LABUTA, onde realizamos experimentos cinematográficos

Bem, nos diga: é fácil se apaixonar no metrô em São Paulo?

Difícil é não se apaixonar. Uma montanha russa. É fácil também se decepcionar. Principalmente consigo mesmo. Por não agir. Porque não?

 

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



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