Entrevistas

Published on julho 15th, 2016 | by Marcelo Leme

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Prosa com Cleiner Micceno

Entrevista realizada com o diretor de “Matador”, filme selecionado para o FestCine Poços de Caldas.

cleinerCleiner, seu filme honra o cinema marginal brasileiro e traz elementos da boca do lixo. Quer nos contar um pouco sobre suas influências e interesses?

Em primeiro lugar, eu gostaria de agradecer. Fico muito feliz de participar do FestCine Poços de Caldas e trazer essa homenagem ao Cinema Marginal, que eu considero uma das mais importantes fases do cinema nacional. A Boca do Lixo, sem dúvidas, deu suporte a muitos cineastas, atores e técnicos, que tinham ali a única opção de realizar seus trabalhos e manter o cinema nacional independente vivo em uma época tão complicada. O Luiz Freitas, que faz o papel de Dioguinho no “Matador”, é oriundo da Boca, trabalhou lá nos anos 70 e 80, participou de várias produções do Raffaele Rossi, trabalhou ainda com Mario Lúcio, Sady Baby, entre outros diretores, o que me estimulou ainda mais a fazer esse curta. Muitos atores sofreram preconceito na época, exatamente por serem da Boca. Então considero uma homenagem ao Luiz, à história dele e a todos que passaram pela Boca.

Tenho muito respeito e admiração por toda essa geração de pessoas que viam nas adversidades um estopim criativo, tendo de burlar as dificuldades, a falta de dinheiro, a censura e tudo mais. O que certamente desestimularia qualquer produção foi superado com maestria por esse pessoal. Foi uma fase de experimentação e guerrilha e isso me inspira de diversas maneiras. Ozualdo Candeias, José Mojica Marins, Rogério Sganzerla e Carlos Reichenbach foram cineastas que me influenciaram diretamente, mostrando que era possível fazer cinema mesmo sem ter tudo a seu favor, trabalhando as ideias com o que você tem à mão. Essa filosofia me fez pegar uma câmera de VHS, ainda no início dos anos 90, e começar a fazer os primeiros experimentos com os amigos. Isso direcionou efetivamente o que eu faria de minha vida.

Eu já era rato de cineclube desde a adolescência. A maior parte de minha formação veio dali. Era uma época bem diferente de hoje em dia, principalmente no quesito acesso à informação. Era muito difícil assistir aos filmes de fora do circuito. Isso praticamente só acontecia nos cineclubes e, pra mim, também através de uma rede de contatos, pessoas que se correspondiam por correio para trocas de VHS e informações sobre tudo que pudesse viabilizar as nossas produções. Foi nessa época ainda que conheci Petter Baiestorf e César Souza, que se tornaram grandes amigos. Inclusive, meus primeiros trabalhos foram editados nas ilhas de edição analógica deles. Era realmente uma guerrilha, viajar centenas de quilômetros apenas para editar um curta-metragem, saindo de Sorocaba/SP até Palmitos/SC, onde eles moravam.

Obstinação era a palavra de ordem. “Faça filmes por que você tem que fazê-los e isso é o que te move”. E é assim até hoje.

Seu filme é livremente baseado numa história verídica. Aparentemente vocês decidiram dar a ela um tom fabulesco. Acha que atingiram o objetivo almejado?

O projeto tem o tom de fábula, pois foi feito dentro de um projeto de workshops de audiovisual chamado “Narrativas Fantásticas”, realizado pela Oficina Cultural Grande Otelo, de Sorocaba. Durante o processo da oficina e com a disposição do apoio logístico pela prefeitura da cidade de Itatinga, conseguimos ir muito além do curso e realizar o curta. Por conta do tom do projeto, o final foi pensado para ser diferente, mas sem deixar de ser reflexivo. Há diversas formas de se interpretar o filme, mas é melhor não dar pistas, gosto que as pessoas tirem suas próprias conclusões. Muitas pessoas já vieram até mim com as mais variadas interpretações pessoais sobre a parte de fábula do filme e acho isso importante. Essa ideia de que nada é, necessariamente, o que parece, faz com que surjam mais leituras e isso enriquece todo o processo. Isso era marca constante do cinema marginal inicial e pode ser notado em todos os filmes da época. Se conseguirmos isso, eu já me dou por totalmente satisfeito com o resultado.

E por quê trazer a tona esse assunto da escravidão e lembrar especificamente de Diogo da Rocha Figueira?

Isso é um lance interessante. Diogo da Rocha Figueira, o “Dioguinho”, é um dos mais notórios matadores da região. A história dele já foi escrita de diversas maneiras, foi tema de música caipira, de documentários e até uns ficcionais. O personagem real tem muitas lendas em torno de sua vida e morte. Inclusive a sua morte é coberta de incertezas – a versão mais corrente diz que ele e seu irmão, que seria também seu comparsa, teriam sido alvejados pela guarda em um bote na travessia de um rio, e que o corpo do irmão tenha sido resgatado, porém o de Diogo nunca foi achado. Há outras versões, até uma segundo a qual ele teria se transformado em um “homem de bem” em algum lugar afastado, mas não há nenhum registro oficial de seu destino, o que aumenta muito o fabulário em torno da figura e permite um processo criativo muito gratificante.

O Diogo original viveu bem no período da escravatura, nos idos de 1860, mas eu queria trazê-lo para uma realidade bem mais próxima e assustadoramente muito parecida. Essa analogia pra mim era muito importante, falar sobre um Brasil bem recente em que persistia a realidade da semiescravidão, como sabemos que até hoje, em alguns casos, persiste, encoberta na clandestinidade em algumas regiões esquecidas de nosso país (infelizmente ainda levará tempo para extirparmos essa praga da face da Terra). Na época em que o filme se passa (final dos anos 70), essa semiescravidão retratada era uma prática aberta e muito comum, inclusive com a benção do Regime Militar, que não via problema nesse abuso. Sem nenhum impedimento, os patrões utilizavam os mesmos métodos inescrupulosos com os retirantes, só tinham trocado a chibata pelo isolamento e exploração dessas pessoas nos canaviais e colônias de boias-frias sem nenhuma estrutura. Nesse cenário, Diogo ainda representa o poder, e através dele eu sabia que teríamos várias possibilidades criativas interessantes para desenvolver nossa história, sem perder a essência bruta do personagem real.

Além disso, Itatinga, a cidade onde o filme foi rodado, além de ter locações perfeitas para a ambientação nos anos 70, foi morada do Diogo original durante um período. Em uma das cenas, a do encontro de Diogo com Onofre, a centenária casa ao fundo foi supostamente sua residência quando a cidade ainda era só um pequeno vilarejo.

Seu filme tem um grande elenco. Trabalhou somente com atores?

Só o elenco principal é formado por atores profissionais. Uma boa parte deles já havia trabalhado em alguns de meus curtas anteriores. Os demais atores e figurantes são pessoas que trabalhavam na varrição de ruas de Itatinga, que se prontificaram na hora a participar do filme. Foi muito bom trabalhar com eles, que se empenharam muito para os papéis. A troca entre os atores e esse pessoal morador da região também foi muito gratificante no processo. É instigante quando todos se empolgam com o projeto e dão o seu melhor para que o trabalho aconteça. Eu só tenho a agradecer a todos os envolvidos na produção.

O que acha das produções de horror brasileiras? Acha que atualmente estamos seguindo um caminho promissor?

Eu acredito que estamos em uma fase prolífica do horror brasileiro, acho que hoje temos mais espaço e público para as produções e isso incentiva bastante o gênero, que por muitos anos foi maldito em nosso país. Acredito ainda que o número de produções tende a aumentar no decorrer dos anos, pois temos muita gente fazendo coisas interessantes e, principalmente, com originalidade. Acho importante que cineastas como o Mojica participem de projetos de produtores mais novos. Essa interação do trabalho, dos efeitos especiais e da linguagem sinaliza um caminho promissor para o cinema de horror brasileiro.

 

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



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