Entrevistas

Published on julho 13th, 2016 | by Marcelo Leme

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Prosa com Marcello Quintella E Boynard

Entrevista realizada com o diretor de “Hooji”, filme selecionado para o FestCine Poços de Caldas.

Marcello Quintella e Boynard

Marcello Quintella E Boynard

Acho que “Hooji” é um dos filmes mais sensíveis do Festival. Quer nos contar um pouco sobre o processo criativo de sua realização?

“Hooji”, meu segundo filme, é fruto de um processo muito rigoroso de elaboração de uma proposta estética e narrativa. O que me motivou a produzi-lo, tal qual ocorreu em relação a meus outros filmes, era o fato de que eu dispunha de um argumento sobre o qual eu precisava falar, que tinha como tema a solidão e a saudade pelo viés de uma história de luto. Como nas outras obras que escrevi e dirigi, produzo de forma independente dramas que falam, direta ou indiretamente, sobre aspectos da vida que se mostram próximos de mim naquele momento. No caso de “Hooji”, pretendia dar ao tema uma aura solene e optei, neste sentido, por contextualizar a trama no universo budista, tomando, por ponto de partida, o haikai da morte do poeta japonês Umezawa Bokusui, que condensa o sentimento sobre o qual o filme trata. A escolha do P&B foi uma consequência quase natural a essa proposta, assim como a opção pela total ausência de elementos temporais, espaciais e até mesmo de texto. Sem diálogos ou textos legendados (há uma única fala em japonês), “Hooji” consegue alcançar uma essência puramente imagética para mostrar a história daquela mãe que espera pela chegada dos filhos que nunca vêm. Ainda desenvolvendo a estética, entendi que o filme precisaria de uma trilha sonora marcante, e fui buscar entre centenas de fonogramas japoneses do início do século XX as músicas de domínio público que permitissem alcançar esse objetivo.

O conceito do filme era tão forte que não foi tão difícil arregimentar uma equipe com paixão suficiente para contribuir muito positivamente para que “Hooji” alcançasse o status de uma obra que considero especialmente de composição coletiva. Todos os técnicos e artistas contribuíram, decisivamente, para que o conceito do filme se mantivesse por todo o tempo, e ainda sim eles conseguiram trazer sugestões criativas fundamentais para que o filme se transformasse no que vemos na tela. E ainda tive a sorte de ter como protagonista a atriz Miwa Yanagizawa, uma força da natureza – ninguém seria capaz de fazer aquela mãe com tanta verdade. Olhando com o distanciamento natural de quem vê que o filme já não mais lhe pertence, sinto que “Hooji” ganhou vida própria e é ainda maior que a soma dos talentos que se reuniram, assim como ele será, daqui a décadas, tão humano e atual como é hoje. Sinto muito orgulho de ter “Hooji” fazendo parte de minha vida. É o meu paradigma pessoal de fazer cinema. Aprendi muito com ele.

Quero dizer que, ao assistir seu filme, me lembrei de Yasujiro Ozu, entre outros mestres japoneses. Alguns planos me remeteram a ele. É viagem minha, ou ele teve alguma influência em seu trabalho?

Não é viagem nenhuma sua. Que bom que você notou! O filme está encharcado de Ozu, um dos cineastas que mais admiro. Tanto que, nos créditos finais, há o nome dele nos agradecimentos. E, nos créditos de abertura, o mantra que se ouve foi extraído de um de seus filmes.

Quer falar um pouco mais sobre a decisão de filmar em p&b?

“Hooji” pedia P&B desde o momento de sua concepção. É mais solene. Dá ao filme uma dignidade artística especial. É mais bonito e expressivo. Enfim, não imaginaria contar aquela história em cores, por inúmeras razões, inclusive pela proposta de atemporalidade cênica. Gostei tanto da estética em P&B para contar minhas histórias que meu filme seguinte, o curta “O Nome do Dia”, também é em P&B.

A fotografia é muito forte em “Hooji”. Quem fotografou? Acha que conseguiu captar toda
a relevância do tema que escolheu retratar? 

A fotografia de “Hooji” é linda mesmo e foi finalista do prêmio da Associação Brasileira de Cinematografia como melhor fotografia de curta-metragem em 2012 no Brasil. O fotógrafo é o Tiago Scorza e ele fez um grande trabalho, conseguindo captar, sim, a relevância que queríamos alcançar. Quando falei acima sobre a relação entre manter o conceito e trazer novos elementos, este é um dos aspectos em que isso se mostra mais evidente. Nós dois discutimos, à exaustão, o conceito fotográfico do filme e acho que ele conseguiu um nível de excelência extraordinário. Nossa parceria foi fantástica e ele, posteriormente, fotografou o novo curta que dirigi, “O Nome do Dia”. Não se mexe em time que está ganhando.

O que a cultura japonesa significa para você?

A cultura japonesa passou a ter um especial significado para mim depois de “Hooji”, afinal, foi um processo de pesquisa muito intenso para a concepção do roteiro e a definição do conceito da obra. Claro que a ambientação não caiu no meu colo de uma hora para outra, sempre senti uma grande atração pelas filosofias orientais, mas “Hooji” serviu para abrir meus olhos para um jeito não-estereotipado de ver o japonês. Muita sorte eu ter encontrado a Miwa e o Carlos Takeshi, grandes atores e grandes amigos e parceiros com quem gostaria sempre de poder contar. Arigatô pra eles!

 

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About the Author

Marcelo Leme

Realizador, roteirista, curador, crítico de cinema do portal cineplayers.com e colunista semanal do Jornal da Cidade de Poços de Caldas. Trabalha no Instituto Moreira Salles. Entusiasta da sétima arte, é credenciado em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Paulínia Film Festival. Teve, em 2013, um de seus textos selecionados pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). >>> instagram.com/marceloafleme



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